quarta-feira, 27 de junho de 2007

Torre do Grangeiro


A donzela subiu à torre e a coruja voou pela janela.


Mal soavam os meus passos na escadaria, antes que me acautelasse da velha madeira do sobrado, esgueiraste-te como esboço de ave de mistério, qual dama senhorial da torre velha… Não sabes que os meus olhos se atraiçoavam nas marcas que a voragem do tempo cravou no reboco, nas traves picadas e esfareladas… incapazes de prever que podias caber dentro do meu olhar? Também eu uso este vão de janela: toda a lonjura que se aquieta sobre o azinheiral e, bem marcado, à distância de uma escrita de fogo ou de luz, o supremo domínio das muralhas.
Silenciosos campos vazios de gente!

A rapariga atravessou campos, seguiu por entre pastos entrelaçados de flores, pisou rudes terras marcadas pela esgalha das árvores e pelas manchas das queimadas.

Cautela! Não se enredem passos e corridas nas sobras de azinho; não se afundem meus pés soltos nestes cardos e folhas secas… Céleres (o espanto!), coelhos saltam do mundo mágico das estevas. Sei do seu território, acerco-me: aldeias de tocas afundadas, nem que espreite!... E atrevem-se, abeiram-se da frescura da horta, que a linha dos choupos e a mancha dos fetos são guias. Também eu, mesmo que o céu se esqueça das estrelas, leio o musgo que cobre o lado norte dos troncos das árvores. E danço com as ramadas da azinheira de frutos mais doces, aonde iam os homens, à socapa, à vinda do moinho, quando o guarda se distraía da cobiça alheia.

A rapariga esgueirou-se por entre os silvados, guardou nos braços o perfume da hortelã brava e do orégão, entregou os pés à corrente do riacho.

Prodigiosa, cristalina água, aonde levas essa cor de terra e cinza que trocaste por cintilações de prata? Ficarei contigo e esquecerei o tempo; só a tua voz, apenas as histórias que os choupos velhos contam e a canção do rouxinol, à luz do sol, à luz da noite. Não adormeças, rouxinol, sobre a videira! Fica alerta, que dos meus olhos se arredou a sonolência do estio, e canta-me a imensidão do céu, a frescura do regato, a singela flor da silva…

A rapariga entreteve as horas à sombra do regadio, na cor que a segurelha pôs na borda dos regueiros, na seda que a água deitou à terra. E a noite abriu-se no suave luar que entra em casa e brinca sobre a colcha, as flores de palha e a cama de ferro.

Abro a janela a todo o silêncio da noite, que canta cá dentro. O som dos grilos, os odores, o toque que a Lua me deixou ficar na ponta dos dedos. Se me deitasse sobre os penedos, vestes de luz me entregaria… E o musgo é cálido, as rochas são cetim, e o corpo é escasso… Fosse leve e voaria!... Quem me chamasse, assim me teria: oh, doces princesas que nos silvados se encantaram, temíveis feiticeiras que nos barrancos se acoitaram, sustos e medos que o meu espanto não calaram!

A rapariga subiu aos montes, seguiu o piar da coruja, dançou na orla do montado.
E a resina das estevas fez-se da mesma pele, corpo abraçado à respiração morna da terra. No lugar onde os penedos, entrelaçados por secretos arbustos, escondem dos demais perfeitos gestos de príncipes errantes.


Envolve-me no teu manto, serena noite, antes que se abreviem os afagos. Ouves suaves trinados de pássaros quase adormecidos? … Um restolhar mansinho?… Um odor de flores e pasto?… Braços serenos como a água dos açudes…
E tu, noite cúmplice, oculta-me de vozes que me procurem!
Subtil teia de prata e silêncio, sopro quente, força alada: teço sorrisos, fontes, searas! …
E quem saberá?

A rapariga teceu luas, na rua do monte, no recanto da chaminé. Aprendeu a canção de embalar, na rega da horta, na água da chuva. E medrou o trigo, abriram-se as papoilas, cresceram as searas.

Corre, menino, asas de colibri a pairar sobre o prado; flutua, menino, em ondas de feno e marés de flor. E foge para o monte, escala o granito, conquista os penedos! Do alto dos sonhos alcançarás caminhos para as estrelas, em leitos de musgo, em aviões de brincar. Sentada na eira, entrançarei coroas de madressilva e alecrim, com o vento…
Escuta! Ouves o melro e a rola? E a fala das árvores, das veredas, dos límpidos fios de água, das rãs, da fonte onde o gado vai beber? Rastos de coelho, vestígios de javali, poejos e cidreira, promessas de amoras…
Sabes dos cata-ventos e das flautas, do sabor da brisa e da cor do entardecer. Sabes do cheiro do barro molhado e da terra seca, do madeiro ardido. Sabes do começo das azinhagas, das vozes com que os campos ocultam o silêncio…
Acautela-te, menino, de cardos e espinhos!
A janela da velha torre dir-te-á quanta lonjura e aonde vão as azinhagas…


A rapariga ficou ao Sol, a saudar as andorinhas. Subiam passos nos degraus da Torre do Grangeiro.









Um comentário:

marialascas disse...

A escritora revela-se!
Texto muito bonito - tinha o privilégio de já o conhecer.
Gosto das fotos, sobretudo da das azinhagas pelos tons.