terça-feira, 15 de janeiro de 2008

Artesanato




Da terra se recolhia o sustento. A terra alimentava, vestia, calçava, dava o utensílio, o recipiente… Nos regatos, nas ribeiras, era onde se recolhia o vime, a junça, o salgueiro… Era junto aos rios, às fontes de água férrea, sob as ramadas dos freixos, dos amieiros e dos choupos… Era no silêncio dos campos, ou com a canção dos rebanhos.Mãos calejadas! Mãos que talharam a cortiça, mãos que desenharam a madeira de laranjeira, mãos que entrelaçaram o salgueiro e o buinho. Com a mesma navalha com que cortaram a côdea e o queijo da merenda.


Na próxima primavera, seja a terra generosa…

Um comentário:

perfume de laranjeira disse...

Guardo da infância o cheiro da terra.Eu, que não sei viver sem o mar, encontro na terra a seiva, o alento. É tão forte, tão poderoso o seu chamamento que às vezes me faz chorar... de alegria de estar vivo, de a poder sentir.

Este espaço é um oásis. Fala da beleza, do que é autêntico. Reconheço-me nele, em cada palavra, em cada imagem. Obrigado à autora.
Deixo um contributo, um poema que fala excatamente do mesmo, da pureza, do encantamento da vida. Um poema de um Homem autêntico, José da Fonte Santa, que me deu a conhecer o Manuel da Fonseca

I
"Uma menina anuncia
num búzio limpo de tempo
que Federico vem chegando
num poema azul
dito por um cigano.

Vem sonhando,
mais leve que uma sombra,
infância seu regresso:
coração verde de pomba
feito verso.

Vem como se fosse:
flor, nascimento,
gesto fresco e puro
ternura encantamento.

II
Quem não é poeta
tenta
mas não inventa
o estar lá
não estando:
sortilégio dado
no momento
em que se mostra
o deslumbramento:
- criança debruçada
no rosto duma pomba
ouvindo uma guitarra
imaginada
ao sabor da vento."