sábado, 12 de janeiro de 2008

Malteses


Quem eram os malteses? Pedintes, desempregados, gente sem abrigo e sem laços familiares? Sobreviventes de uma solidão desejada ou forçada? Malfeitores? Há muitos anos, sempre que queria aventurar-me pelos olivais ou pelo arvoredo mais denso das margens do rio, avisavam-me para que me acautelasse dos malteses. Hoje, a minha tia ainda guarda a memória de algumas dessas pessoas e conta que havia gente de idade, sem meios de subsistência, e outros que, com a falta de trabalho, em tempos de crise, andavam pelos campos a pedir. Havia quem fosse, semanalmente, pedir ao monte do meu avô. Levavam consigo um taleigo onde guardavam os alimentos recebidos e uma espécie de caçarola de lata; em qualquer recanto acendiam o lume, improvisavam uma trempe com pedras e paus e aí cozinhavam. Abrigavam-se nos fornos ou nos palheiros. E também recorda as histórias daqueles que andavam a fazer assaltos. Houve uma vez um maltês de longas barbas que, tendo passado pelo monte da prima, se teria escondido junto à lenha, esperando que escurecesse. Já noite, bateu à porta. Ia para roubar, foi preciso a mulher disparar dois tiros de caçadeira para o assustar.
Nunca encontrei nem conheci quem se entregasse a uma vida errante. Mas convivi com pessoas que tinham feito de tudo um pouco na vida e que, já com uma idade avançada, moravam sozinhos numa pequena dependência do monte, sobrevivendo da realização de pequenas tarefas ou dos campos que calcorreavam. Conheci gente a quem bastou uma cocheira desactivada, uma cama e parcos haveres. Eram, todos eles, senhores de uma profunda sabedoria: talhavam a cortiça, a madeira, a cana; construíam papagaios e moinhos de canavoura; consertavam o guarda-chuva, a ferramenta partida; faziam flautas de cana; improvisavam uma chaminé numa barreira de terra e aí ajeitavam a panela de barro. Sabiam erguer cabanas e construir abrigos, remediavam o desgaste de umas botas velhas, distinguiam o canto dos pássaros, recolhiam e vendiam, sazonalmente, agriões, orégãos, poejos, catacuzes, espargos, cardos, alcachofras, louro, alecrim e rosmaninho, vasculhos… Conheciam o segredo das plantas medicinais. E em Dezembro traziam o musgo alto e sedoso, o pinheiro, ramos de medronheiro e de gilbardeira colhidos em recantos e extremas que só eles conheciam.
Leite de Vasconcelos conta que um idoso, em 1915, sobrevivia da venda de espargos apanhados pelos campos, vendendo-os depois de terra em terra. Abrigava-se numa furna perto do Guadiana, onde dormia sobre uma cama de esteva, tapado por uma manta alentejana. Cá fora fazia o lume e cozinhava as açordas ou as migas numa marmita de lata. Nos alforges, transportava sempre consigo todos os seus haveres: a marmita, a garrafa de azeite, a faca, a colher, o garfo e o bocado de foice. Lavava-se nas águas dos ribeiros ou das fontes. Segundo este autor, era nos azeiteiros que os malteses levavam o azeite de tempero, o que nos faz crer que o seu modo de vida não os deixava permanecer num só local.

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