domingo, 13 de janeiro de 2008

Os malteses na literatura e na etnografia

"...era um maltês, quase sempre desempregado por falta de trabalho, descalço e andrajoso no aspecto, alegre e arguto na conversa. (...) Vendia o que trazia, e por bom preço. Chegava sempre ao cair da noite, vindo dos campos. O trajecto na cidade fazia-o pelos sítios mais esconsos e escuros, em passadas rápidas e furtivas."
Galopim de Carvalho

"No Inverno, rasgado, a barba crescida, assomava aos cabeços dos montes. Todos o olhavam com desconfiança. "Não, respondiam-lhe, nem trabalho, nem dormida. (...) Na terra escura, varrida pela nortada, não havia uma luz, nem uma telha. Maltês enrolava-se na manta e dormia em qualquer chapada, ao abrigo dos matos. Corrido das herdades, cheio de fome e de raiva, farejava os caminhos. Chegara a postar-se nas encruzilhadas desertas à espera das mulheres que vão, pelo meio-dia, levar o comer aos maridos. Muitas vezes não só comia: amava também. Após breve luta, era um amor brutal."
Manuel da Fonseca

"Ao cair da noite outra ordem de indivíduos aborda os montes, ora em grupos de três ou quatro, ora isolados, a um e um, todos com manifesto desembaraço.
Novos e ágeis pela maior parte, não inspiram confiança a quem os vê, antes causam asco e repulsa, pelo seus tipos hediondos, sujos e esfarrapados.
(...)
- Esmola e agasalho a um pobre, senhora lavradora - dizem em tom altaneiro os mais atrevidos, arrimando à porta de cacete na mão e manta às costas.
- Vá para o forno..., logo ceará - (...)"
Silva Picão


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