sábado, 3 de janeiro de 2009

A morte das oliveiras



Quando assisto a um cenário como este, não posso deixar de pensar, com nostalgia, nas oliveiras seculares que ainda se encontram por esses olivais, dos quais já se esqueceu o nome. Era nos buracos que o tempo abria nos troncos grossos e retorcidos, ou junto às raízes, que o imaginário das populações guardava as moedas de ouro, a riqueza dos mouros, lá fundo, bem fundo. Nos nossos olivais, antigos e mal cuidados, procuravam-se os espargos, ia-se ao rabisco da azeitona que depois, ano após ano, foi ficando por apanhar.
Por que razão cortam e arrancam oliveiras ainda novas? Talvez para abrir espaço para mais um desses montes descaracterizados, onde se vive um Alentejo de fim de semana… Talvez para fornecer árvores decorativas para mais uma rotunda, ou um jardim… Reconheço que as oliveiras dão uma beleza especial a esses lugares mas elas têm um papel na história humana que exigiria outro destino. Alguém revelou, uma vez, a sua perplexidade por considerarem que a oliveira é a árvore que representa a paz: a oliveira, de ramos contorcidos, enraizada em terrenos áridos… Mas quando olho para a mancha de verde cinza que deixam na paisagem, quando sinto aquela penugem com que as folhas se protegem da seca, sei da força intemporal com que resistem à aridez, até que os céus se partilhem de novo com a terra.
Sabiam os romanos da importância da plantação da oliveira e da produção do azeite; Alfredo Saramago contou-nos como este povo soube usar os frutos e o óleo na sua alimentação. Mas o azeite teve e continua a ter, felizmente, um papel importante na dieta mediterrânica. E aqui e além, assiste-se à plantação de novas árvores. Talvez assim se possa falar do futuro e não apenas da História.




António Belo, no seu “Alentejo onde nasci”, conta como se fazia a apanha da azeitona na zona de Reguengos de Monsaraz, em meados do século XX. Essa era uma prática comum no Alentejo: estender os panais, varejar a azeitona, limpá-la de folhas e de ramos, apanhá-la por entre os torrões e as azedas, encher os cestos e depois as grandes sacas, onde não podia permanecer muito tempo, para não queimar. Era verdade que as mãos doíam do frio e que era preciso esfregá-las e escondê-las por entre a roupa, ou manter uma fogueira acesa ali por perto.
Nas pequenas economias domésticas, a família chegava para recolher a azeitona de um pequeno olival. Conheciam-se as oliveiras que davam a maçanilha, a bical, a cordovil. Em primeiro lugar, apanhava-se a azeitona para conserva ou para retalhar. Ao serão, junto à lareira, colocava-se a postos o balde e o retalhador: um tabuleiro de madeira com um orifício cheio de lâminas, por onde se iam empurrando as azeitonas, com destreza e cuidado, para não ferir os dedos. Depois enchiam-se as grandes tarefas de barro, deitava-se água, de preferência a da chuva, recolhida sob os beirais, mudava-se essa água diariamente e, quando estivessem doces, eram temperadas com sal, orégãos e louro. Ao fim de um dia, levava novamente água, que não se voltava a tirar. A restante azeitona era levada para um dos lagares da vila, de onde, depois de tirada a maquia, se trazia o azeite em potes de folha.
Na cozinha do meu avô, havia um desses grandes potes sobre o poial, junto aos alguidares de barro usados para amassar o pão. Ouvi contar que uma vez caíra lá dentro uma gata parda e que, a partir daí, a bichana passara a ter um pêlo lindíssimo. Do que me recordo bem é do azeite coalhado nos dias frios, do azeite usado nas lamparinas do oratório e nas rezas para tirar o quebranto e, sobretudo, das torradas feitas ao lume e barradas com azeite, sal e alho.

Um comentário:

Hugo disse...

Ola

e uma verdadeira pena !!!!

arancar oliveiras .......
e como arancar nossas raizes ....