sábado, 25 de abril de 2009

Papoilas em Abril


Gosto do perfume dos cravos, da firmeza e do recorte das suas pétalas, gosto da sua história e da paz com que selaram as bocas das espingardas! Mas prefiro as frágeis papoilas que crescem espontaneamente à beira das estradas e que se espalham como gotas rubras nos campos verdejantes. Gosto das papoilas, que floriam no meio das searas como um coração a bater, sangue que flui pela dádiva do pão, pela dignidade do trabalho e de todos os aspectos essenciais à vida. Soube de quem colhia as suas folhas e as escaldava para as transformar numa sopa comestível…Outros tempos?
Prefiro as papoilas, ainda belas e de cor intensa, insignificantes e autênticas, a lembrar os gestos singelos de um brinquedo de criança: “galo, galinha, frango, franganinha …” - boneca de saia vermelha e cabeleira negra.
Gosto das papoilas, crescem num qualquer recanto e à nossa beira. Não, as papoilas não guardam as suas pétalas para enfeitar discursos plastificados, vazios e alheios à realidade das pessoas – esses milhares de pessoas simples (algumas que conhecemos ao nosso lado, com um nome e uma história de vida), a quem dão o nome de percentagem, ou de estatística. Não, as papoilas têm a cor da força da vida mas também sangram e choram quando Abril fica encerrado num compêndio de História.

2 comentários:

Carlos Machado Acabado disse...

Este hino às papoilas recordou-me, de repente, um texto de Machado, o 'proscrito de Sória' dedicado às... moscas:

"Vosotras las familiares
Inevitables golosas
Vosotras moscas vulgares
Me evocais todas las cosas!
Oh viejas moscas pertinaces
como abejas en Abril... etc. etc."

Ou outro mais bonito ainda dedicado a um "olmo":

"Al olmo viejo y amarillento
En su mitad podrido
Unas hojas verdes le han salido".

Conforta ver como estas realidades geralmente esquecidas despertam nas pessoas sensíveis a ânsia de cantá-las, descobrindo-lhes atributos e virtudes que escapam ao olhar vulgar!...

marialascas disse...

As papoilas também são a minha flor preferida, frágeis e intensas como costume dizer.Quantas colhi entre as espigas de trigo!Inocente mas tonta, que não percebi que assim matava aquilo que amava. E assim me lembro dum filme que gostei muito "Feliz Natal, Mr Lawrense" onde se canta algo que traduzo por "mata-se aquilo que se mata" - o que me parece muito verdadeiro!!!