segunda-feira, 13 de abril de 2009

Trabalho

Pois, amanhã regressarei ao trabalho... Por isso, recuperei um texto que vale tão somente pelo riso que provocou, à medida que o ia construindo. Eh! Eh! Eh!




Zé Formiga


Pelas dez da manhã é que é mais certo que o sol aqueça os bancos do largo. É a esta hora que se juntam o Chico Augusto, o Mestre Tó, o João Engenheiro e o Emilinho da Viúva. Juntam-se na zona mais solarenga, se for de Inverno, ou no murinho à entrada da Sociedade, onde a sombra refresca mais em pleno Estio. Pois bem, o que importa é existirem as condições indispensáveis para a reunião diária: o sol ou a frescura, um assento onde aguentar a vigília e uma boa visibilidade geral. Eis, pois, a missão que os junta, e não se creia que os sentidos não começaram já antes a registar meticulosamente os sons e os movimentos de quem circula por aqueles lados.
Começam bem cedo, até antes de pôr o pé na rua, e são tão prontos, tão constantes como o Zé Formiga.
“Esse não falha. Já passou! Já passou, às oito já lá ia. E já tornou a ir. Não perde um minuto. Há-de estar a voltar, mais coisa, menos coisa, com mais tralha às costas.”
“Ontem à tarde esvaziaram o barracão velho do Trolha – é dito e certo!”
“Ora pois cá está ele, é matemático. E deixa-me ver o que traz e para que haverá de servir…”
“Eh lá, ò Zé! Ora deixa cá ver, esse material há-de servir para o biscate que o tio António te encomendou…”
“Não tenho tempo! Não tenho tempo!” – Foge-lhe a voz e o passo corrido. Não pára para cantigas, formiga que é.
E o Zé Formiga corre todo o dia para cima e para baixo. Traz o fogão que deitaram no lixo, descobre o colchão atirado para o ribeiro, os pneus velhos; enche os sacos com pinhas, carrega a lenha das esgalhas… Tudo serve, tudo tem serventia, criatura esforçada e amealhadora, qual mecanismo de reciclagem do desperdício alheio. Transforma a arca velha em plantação de coentros, há-de construir a vedação do galinheiro da Tia Alice com os bocados de rede … Sabem-no o Chico Augusto e o Mestre Tó, que registam as necessidades da vizinhança enquanto esta faz o avio e desabafa a mágoa quotidiana das canseiras da idade na mercearia mais próxima.
“O Trolha juntava lá muita murraça.”
“Muita está desfeita, fica lá no valado, mas as latas que guardava hão-de passar hoje por aqui, todas pelas mãos do Formiga.”
“Latas grandes, da tinta? São pelo menos umas vinte.”
“Lá vai ele dar uma ao Silva, aí umas duas vão p’rá tasca do Xavier, outras duas vão dar jeito à tia Mariana para juntar as viandas para os porcos…”
O largo é o centro da vila, quiçá o centro do mundo.
“ A mulher do Silva vai às hortaliças.” - João Engenheiro conhece os horários.
“Muita couve de azeite e vinagre aquelas almas comem, e fazem bem, dá saúde! Eu cá sei que a couve desintoxica e deslassa a gordura!” – Mestre Tó apregoa certezas.
“Deu na televisão que umas pessoas ficaram muito mal, com uma doença que deixava assim a pele toda azul, parece que as hortaliças tinham levado um químico… É só químicos e venenos e porcarias, a gente sabe lá!” – Emilinho da Viúva aguça a voz, estremece de horrores.
“E o Zé Formiga?”
Fez as voltas da manhã. Ao regressarem do almoço, viram-no retomar o ir e vir. E o ir…
Era certo! Era ritual! Mas Zé Formiga tardava!...
“Bom, que é lá isto? O homem ainda não tornou?”
“Vá-se lá ver e o Zé Formiga resolveu descansar um bocado.”
“Ou apareceram os filhos do Trolha e ficou na conversa mais eles.”
“O Zé Formiga a descansar? Na léria? Este tempo todo?”
“Eu cá sei que o Zé Formiga nunca pára um minuto, a não ser para o que a Natureza manda.”
“E já teve mais que tempo para arrebanhar as coisas e fazer o caminho de volta: quinze minutos para pôr as latas a jeito, mais meia hora porque sempre vem carregado…”
“E se passou alguma coisa por ele, como aconteceu ao cunhado do Xavier? Ouvi-o contar que estranharam não o ver aparecer na loja. Passou a hora de abrir e desconfiaram que era coisa séria. Foi aí que a tia Amelinha se pôs a espreitar pelo postigo…”
“Já deu nas notícias que um homem ficou desacordado em casa, durante dias. E houve um que caiu numa ribanceira e passavam por ele sem o ver.”
“Qual quê! Eu cá sei que o cunhado do Xavier estava atafulhado em gorduras e mal se mexia. O Zé Formiga ainda é novo e tem couro rijo, de trabalho.”
“ Os carros passam mesmo lá perto e viam, se fosse o caso. A esta hora, já passou a carrinha do António Lagartinha e o jipe do doutor veterinário, que tem ido todos os dias para a herdade do Ferral.”
“Eu cá sei é que há para aí muita malandragem. E que alguma aconteceu, eu sei que aconteceu! Desde gaiato que o Zé Formiga se estrafega a trabalhar, ia lá parar agora. Alguma lhe fizeram!”
Do Zé Formiga nem rasto! Não passaram as latas de tinta, nem as folhas de zinco, nada de nada.
Chico Augusto, Mestre Tó, João Engenheiro e Emilinho da Viúva, em estado de alerta declarado, fixam-se em todos os acessos ao largo, conferem resultados, avaliam a poder de observação de cada um. Nada! João Engenheiro deixou de contar as horas mas assegura que foi há um ror de tempo que o sumiço teve lugar. Emilinho da Viúva fez o inventário dos acontecimentos macabros que a memória da vila e arredores guardou. Chico Augusto agita-se porque o que quer que se passe, acontece fora do seu alcance, longe do largo da vila. Mestre Tó sabe que algo aconteceu, lá isso sabe.
“Está visto! Ora aqui é que não se resolve nada!” – ordem de marchar.
É bem certo que nem sempre se podem cerrar fileiras em pontos estratégicos. O largo da vila tornou-se, de súbito, insuficiente para hastear as certezas do grupo. E o grupo pôs-se em marcha, no trilho do Zé Formiga, para ler sinais no barracão do Trolha.
“Aquele sujeito que entrou ontem no Café Central não é destes lados.”
“Ná, e era mal arraçado!”
“Até disseram que ele se meteu num carro com outros da mesma laia. E ninguém os conhece de lado nenhum.”
“Eu cá sei é que boa coisa não andava a cheirar! Era só perguntas a um e a outro, tinha-a fisgada!”
“Queres ver que era a corja que andou a assaltar os montes da serra? “
“Desgraçado do Zé! A esta hora já levou uma cacetada e não houve quem lhe acudisse.”
“Deram-lhe mas foi uma droga qualquer para saberem quais as casas que podem assaltar.”
“Mas hão-de ter as voltas cortadas. Pessoal, é arranjar primeiro um porrete valente e eles depois vão ver que o povo não está a dormir como eles queriam.”
“Estão muito enganados se julgavam que não dávamos conta do Zé Formiga. Achavam que era um desgraçado qualquer, um Zé Ninguém…”
“ Um homem daqueles, que não pára um minuto, fazerem-lhe uma destas!... Malandragem! Gabirus!”
“Se lhes ponho as mãos em cima!...”
“Pois hão-de ser importantes, hão-de aparecer no jornal mas é pelo enxerto que vão levar!”
A passo rápido, o barracão não tarda, já visível do lado direito da estrada. Depois é cortar pelo caminho de terra que desemboca no monte de ferro velho e de outra tralha acumulada. A clareira enche-se do sol, bem assente nas chapas luzentes. Por trás da ferragem retorcida e das latas vazias, o som roufenho de um rádio mal sintonizado.
“Há para aqui algum!” – andar cauteloso e cacetes em riste.
Monte de sacas velhas ao sol, rádio ligado e um vulto deitado. Zé Formiga adormecido, sorriso esquecido na face e braços cruzados sob a nuca, ao som dos “Cantares do Alentejo”.
O Trolha deixara latas, ferros, caixas, madeiras, arames e umas pilhas pouco usadas. O rádio velho, espólio inesperado, convenceu Zé Formiga. E derrotou o grupo do largo.
“Uma destas!” – e os paus apanhados pelo caminho caíram no monte de lixo.
A que horas o Zé Formiga acordou e voltou a passar pelo largo da vila, não consta nos registos. Chico Augusto, Mestre Tó, João Engenheiro e Emilinho da Viúva já estavam em casa, mais cedo do que era costume. E estranhamente, à volta, pouca atenção tinham prestado aos gestos dos vizinhos…

3 comentários:

Vieira Calado disse...

Andei por aqui a ler

e cheirar as flores.

Gostei.


Cumprimentos

Bordadosdabibi disse...

Cheguei aqui por acaso,e fiquei maravilhada com o conteudo deste blog,fez-me voltar ao tempo da minha meninice,os brinquedos,os passeios pelo campo(apanhar espargos,poejos etc.)a gastronomia,naquele tempo tudo era tão simples e belo.
Adorei.

marialascas disse...

E eu o que gosto mais é de é de ver sair a escrita da sua gruta secreta........