quarta-feira, 10 de junho de 2009

Cabaz do hortelão

Este é um dos primeiros cabazes que recebi e, se o fotografei, não foi apenas por querer divulgar esta iniciativa, que considero verdadeiramente louvável. De facto, um projecto desta natureza contribui para promover os pequenos produtores locais (esses rostos conhecidos, cujos projectos de vida devemos apoiar) e, ao mesmo tempo, garante ao consumidor um conjunto de produtos muito frescos e de qualidade. Outro aspecto interessante consiste no facto de se conhecer os produtores, do contacto que se estabelece e da possibilidade de visitar as hortas onde se cultivam todos estes legumes. É que eu sempre gostei de hortas: das que eram feitas nos montes, dos canteiros que eu também semeava, das hortas das quintas aonde íamos comprar os legumes de Verão e, hoje em dia, dos recantos com morangueiros e aromáticas que tento preservar no quintal.
Voltando ao cabaz, no dia em que os fui levantar, cheguei à Junta de Freguesia cansada de correrias. Peguei na caixa, espreitei o seu conteúdo e coloquei-o rapidamente no carro. Mas depois, quando me dirigia a casa, comecei a sentir um cheiro intenso a horta e foi como regressar à frescura das tardes de Verão passadas nas quintas, onde a água da rega levantava o odor dos sulcos de terra e dos pés de hortelã e segurelha.


Dessas hortas, recordo vivamente os grandes tanques, normalmente cobertos por parreiras, e as fontes de água fresca onde se pendurava o corcho de cortiça. Era junto às fontes, à sombra de uma árvore, ou numa mesa de pedra (geralmente, era a mó de uma das azenhas da região), que se faziam os piqueniques. Só que não ia tudo feito de casa. Pelo contrário, era ali mesmo que se preparavam a salada de tomate e pepino, o gaspacho (com a água da fonte) e que se assavam as sardinhas e os pimentos. Para sobremesa, as ameixas amarelas ou vermelhas, cujo sabor apenas recupero quando compro a fruta aos camponeses que se deslocam ao mercado municipal, aos sábados.



Quando conheci um oásis tunisino, pequeno espaço fértil com verdejantes legumes e perfumada menta, de que recordo especialmente as romãzeiras e as tamareiras, lembro-me de ter pensado que já os tinha encontrado há muito tempo, no Alentejo. Na Tunísia, a visita a essas hortas insere-se num itinerário turístico que dá a conhecer a cultura e o modo de vida das populações. Pois por cá, no mercado, quando compro a qualquer hortelão, trago sempre, em dois dedos de conversa, um conhecimento de gerações e um pouco da nossa identidade. Dizia-me um deles, há uma semana, em jeito de pedido de desculpa, que pedia um euro e meio por dois molhos de beldroegas porque davam mais trabalho do que andar a colher o feijão verde. E eu disse-lhe que sabia que era mesmo assim. Gosto de refazer, nesses diálogos, o desenho do feijão enfileirado, a cor a amadurecer nos tomateiros, as plantas dos melanciais, as beldroegas agarradas à terra húmida… E eles gostam de saber que não encontro, seja em que hipermercado for, o mesmo sabor genuíno.
E é por tudo isto que continuo a ir ao mercado e que encomendo o cabaz do hortelão.


7 comentários:

Vieira Calado disse...

Um belo post sobre as coisas boas das terras e das hortas!

Revejo-me no seu entusiasmo.

Beijoca

Sofá Amarelo disse...

Hum, até o cheirinho chegou aqui... e lembrou-me que amanha de manha tenho que ir regar a horta do meu tio de França que já veio mas ta na terra e pronto... com este calor as abóboras e o feijão verde não se aguentam - troco a praia pelas regas mas não me importo.

Um beijinho grande! Bom domingo!!!

Carlos Machado Acabado disse...

Olá!
As imagens são, de facto, irresistíveis!
Aproveito, desde já, para convidar a titular do "Fluir" para uma visita ao "Quisto" (onde será, como sempre, muuuuito bem recebida e) onde alguns aspectos particulares da "questão ambiental" acabam precisamente de ser tratados esperando, pois, adequado comentário...

Carlos

Ezul disse...

Em breve, em breve... Já espreitei mas não me detive.Por agora embrenho-me, noite dentro, por mais uns "relatoriozitos". Volta e meia venho aqui, só para confirmar que ainda existo, e logo retorno à ditadura das "grelhas"!

Carlos Machado Acabado disse...

Boa descida aos infernos do trabalho triunfalmente inútil e absurdamente esgotante, então!...

Alexandre Júlio disse...

Homenagem ao Hortelão!

Que bonito foi ler esta tua homenagem, é seguramente um grito de alerta, de esperança que esta classe não pode acabar, são eles que sentem o pulsar da terra, das sementes, dos aromas que nos levam até a casa. Mais que o lucro têm como primeiro objectivo apresentar o melhor produto, servir o melhor possível e se sobrar alguma coisita ainda melhor, é esta a horticultura sustentável e racional que nos importa preservar, só é pena faltar a muita gente a verdadeira consciência de consumidor!
Partilho em pleno este teu grito, do qual faço o meu dia a dia de luta, por um mundo rural vivo onde os autoctones tenham lugar naturalmente, sem favor!

Besitos, Alexandre

perfume de laranjeira disse...

Falas de uma forma tão bela e tão verdadeira de quem sabe saborear o sabor da terra plenamente e de todas as suas coisas puras e fortes e frágeis e sublimes que nos dá. Desses cheiros que de repente senti de novo, tão intensos. Desses cheiros que guardo dentro de mim desde a minha primeira horta nas margens do rio Sado, na Funcheira. Sabes que nessa altura conheci a beleza dos teus campos, pois quando mais tarde os conheci fisicamente, percebi que a sua beleza não me era estranha. Soube depois que aos campos da minha infância unia-os uma mesma linha longitudinal, talvez a que me levava nas minhas viagens imaginárias... Obrigado pelos cheiros intensos que me deixaste saborear de novo e pela beleza imensa deste teu espaço...