terça-feira, 7 de julho de 2009

Do Montado ao rio Almansor: as lições dos mestres

As plantas medicinais



Mestre José Salgueiro



“Ora senhoras e senhores, agora temos aqui uma outra que é o funcho. Eu comi muito disto quando eu era menino e era já criança. Primeiro, antes de ser criança fui menino, ou as duas coisas ao mesmo tempo. Isto primeiro… quando isto é pequeno e novo, isto escalda-se com água a ferver. É assim: coloca-se numa…numa tigela, vá lá, cortado, água a ferver para cima, lava-se. Essa água atira-se fora para não ter este gosto tão forte.”

“A raiz e as sementes e as flores…raiz, sementes e flores, serve para os homens e as mulheres se desenrascarem…naquelas marés precisas! Em chá, em chá, mas a raiz também tem uma outra aplicação muito melhor, é aquelas diarreias crónicas que são teimosas em não abalar de maneira nenhuma, um chá…”


A biodiversidade do Montado


Engenheiro Alexandre Pirata



Outras plantas medicinais





"... a minha mãe atafulhava-nos de bolota cozida. Às tantas a gente já não queria mas ela dizia: Olha, se não queres não comes mais nada. A azinheira dá quatro espécies de bolota..."



"Eu a ver se tirava aqui um musgozinho... mas não há aqui. Há aqui uns musgos brancos, aqui em certas partes da azinheira, esses musgos foram usados durante séculos pelos pastores. Porquê? Os pastores antigamente havia alguns que não tinham dinheiro para botas, aquilo era miséria terrível, usavam tamancos, tamancos, era... sola de madeira. Os homenzinhos de Verão andavam atrás do gado, chegava-se à noite com os pés todos feridos, todos feridos, todos assados. O que é que os homens faziam? No dia seguinte, de manhã, enchiam o tamanco de musgos de azinheira e pés adentro. Chegava-se à noite e já estavam completamente sarados e então era só esperar um dia ou dois e ficavam curados. Olha, cá está! É este musgozinho branquinho que está aqui mas era... em grandes quantidades! As mulheres faziam assim: arranjavam musgo destes e depois torravam um pouco para desfazer e peneiravam, as camponesas. Tinham isso dentro de um saquinho, ali para quando fosse necessário porque nesse tempo havia muitos lumes de brasa, lumes de lenha, lumes de lenha, e de vez em quando as crianças caíam e caíam e havia muita gente queimada, ao contrário de hoje. Hoje há outras braseiras. E então as mulheres faziam este... musgo era quase todo torrado e esmagado e peneirado, dentro de um saquinho. Uma criança caía ao lume, ela, de repente, já tinha à mão, já estava preparado. Azeite cru, punha sobre a queimadura rapidamente azeite cru, muito rápido, e depois musgo de azinheira ali em cima. O azeite era para o musgo segurar. Uma camada aí de meio centímetro de musgo, no outro dia a mesma coisa e aquilo não ampolava, não ampolava e ao fim de sete ou oito dias era só esperar que caísse a carapela. Caso contrário criava ampola e havia um sofrimento horrível."


O moinho do Almansor



Ti Zé da Gaita

“E depois o teigão tinha à parte de cima um atilho com uma cortiça atada à ponta e tinha assim uma forca… entrava e ficava com aquele eixo e tinha outro atilho com um chocalho atado. Quer dizer, a cortiça estava cá dentro do teigão tapado de trigo e a gente punha o chocalho em cima do atilho. Quando o trigo cá se acabava, o chocalho fazia assim, caía para cima da mó. Você nem queira saber o barulho que aquilo fazia, um gajo estava deitado, era obrigado a acordar. E então o que é que fazia, levantava-se, vinha cá, tratava do moinhozinho, catrapus, deitava-se outra vez e trabalhava ali uma hora, uma hora e…, tornava a tocar…”

“Era pago à maquia, de cem quilos, pagava dez. Você trazia cem quilos de trigo, só levava noventa de farinha. O farelo... ia com a farinha, havia de ficar para o moleiro, não? Depois isto tinha uma coisa, havia aquele moleiro que gostava do farelo da asa de mosca, era o farelo saído, e havia outro que gostava do mais remoído. A farinha com o farelo mais remoído tinha mais força…levantava o pão ou baixava.”


3 comentários:

Carlos Machado Acabado disse...

Olha! Olha!
Apesar de todos os entraves e obstáculos, a terra segue fluindo regularmente!
Fico feliz por isso!...
É um cantinho deliciosamente verde num universo (quase?) invariavelmente... negro.
Bom, pronto cinzento---no mínimo...
Ah! E já viu, no 'Quisto', a postagem sobre "A Vida É Bela"?
E já se reconciliou, também um pouco com a "maldade" feita pelo Benigni?
Refiro-me, claro, 'àquilo' de falar do horror dos campos de concentração 'naquele' tom de comédia satírica?...
Esqueci-me, na postagem de fazer referência a uma ironia deliciosa que consiste em identificar como... "Schwantz" o menino alemão cujo nome o nosso 'herói' ignora.
É que (além de outra coisa pior...) "Schwantz" significa... "traseiro" em calão alemão.
Mas quando lhe sobrar um minutinho, dê a sua opinião ("updated"...) sobre o filme, está bem?
Cordialíssimas saudações!

Alexandre Júlio disse...

Mãos calejadas pela dureza da vida!

São estes os heróis anónimos e tantas vezes desprezados ou ignorados, pela sociedade que tanto corre sem nunca chegar a lado nenhum.

Ouvir o mestre Zé Salgueiro, é sentir o gosto, os aromas, o alívio que estas plantas mágicas nos proporcionam, se aceitarmos o desafio de as conhecer e as ter como companheiras pela vida fora.

Ouvir o Zé da Gaita, o decano dos Moleiros, é sentir o pulsar do açude a alimentar ininterruptamente a levada, através das comportas, com o precioso combustível a água desviada do leito do rio, tão natural e sustentável, o rugir das mós, rolando lentamente os grãos através das suas rugas, até surgir o milagre - a Farinha, para alimentar as barrigas famintas, .... .

Foi o desfolhar de duas enciclopédias vivas, a beleza das suas narrações, foram todas elas vividas na primeira pessoa, bem hajam meus ilustres amigos, por partilharem connosco tanta sabedoria.

Alex.

Ezul disse...

Faltou registar a lição sobre o montado, o filme não faz lhe faz justiça. Falha minha! Ouvi muitas das informações mas não consigo reconstituir , sem cometer erros, a essência do que foi transmitido. Ficará para uma pçróxima oportunidade, isso posso garantir.