sábado, 9 de janeiro de 2010

Alqueva













Visitar Monsaraz é sempre uma oportunidade de viajar no tempo e de reencontrar um espaço único, como se a memória e a identidade se inscrevessem no xisto e na cal, no tear da artesã, no traçado de uma rua, num gato que espreita o sol, na saudação com que os habitantes nos acolhem.
Transformou-se a paisagem avistada lá do alto, a imensidão dos campos deu lugar ao grande lago, uma paisagem de assombro para quem se habituou à exiguidade das ribeiras e das albufeiras.
No ancoradouro, o nível da água comprova a intensidade da chuva neste Inverno. Há quem venha das aldeias mais próximas e recrie o limite da terra alagada, os espaços submergidos. Apontam o percurso da antiga estrada, da ponte… Memórias!
Ficaram as recordações. E o que trouxe o lago imenso? Campos verdes… Cultivados? Aldeias habitadas? Responder-nos-á o silêncio frio das ruas de onde se foram os raios solares e os idosos. Valha-nos a imagem de alguns olivais renovados. Pergunte-se agora às gentes que por ali permanecem se o sonho se cumpriu.

14 comentários:

Pilole disse...

Hola Ezul, gracias por entrar en mi blog. Tus fotos son preciosas. Yo vivo en la frontera con Portugal, también en el Alentejo, muy cerquita de Marvao y Castelo de vide, supongo que sabrás donde están. Te visitaré. Un beso

Carlos Machado Acabado disse...

Já havia a "Filosofia da Alcova" do Sade, "este" agora tem para gerir uma "Filosofia do Alqueva"...
Outros tempos, outros Sades...
Bom fim-de-semana!...

marialascas disse...

O sonho foi de outras gentes e com elas morreu. O alqueva chegou noutra era e os desafios terão que ser outros.
Pessoalmente ainda não consegui reconhecer a beleza do grande lago. Talvez seja a única, porque tenho ouvido por aqui muitos elogios a quem vai de visita.

Ezul disse...

De quem foi o sonho? Inundaram campos e destruíram habitats, submergiram património histórico, desapareceu uma aldeia e a relação que uma população tinha com o espaço onde vivia… a troco do quê? De uns quantos barcos, de uns passeios para turistas? E o Alentejo a continuar como um parque para passeios de fim-de-semana, já que, nos outros dias, se desperdiça a terra e o recurso precioso que é aquele imenso espelho de água? Ou será agora o sonho da construção desenquadrada e desequilibrada, destinada a pessoas que não sentem esta terra? Será o sonho dos vizinhos do lado, que têm a capacidade de empreendimento que falta aos nossos (por falta de iniciativa, ou por sistemática fala de apoio das entidades que deviam favorecer esse espírito)? Continuará a ficar fora dos nossos sonhos a capacidade de aproveitar os nossos recursos de forma equilibrada mas produtiva?
Quanto à beleza do lago, a mim impressiona-me ver a extensão de água a cobrir, na zona de Monsaraz, um espaço que ficou nas minhas recordações, do ano em que trabalhei (pela 1ª vez) em Mourão. Depois, quem nasceu junto ao Atlântico e passou a ter de procurar um pouco de mar nos rios que encontra...

CarlaSofia disse...

Aqui está uma boa sugestão para um passeio. As fotos estão lindas.
boa semana :)
~universosquestionáveis~

Carlos Machado Acabado disse...

Magnífica ideia---e soberba frase---aquela que fala de um destino cumprido, no fundo, a "procurar sempre um pouco de mar' nos rios que a vida vai, sempre 'ao acaso dos acasos de que ela mesma é feita', pondo ao alcance das 'vidas errantes' de cada um de nós!...

Esta "Ezul" é, decididamente, cada vez mais, uma caixinha de [belas e contínuas!] surpresas!...

Espinete disse...

Ezul, se calhar as perguntas que lanças para o ar eram bem respondidas do lado espanhol da barragem... Nós por cá falta-nos iniciativa e investidores... Pouco lucramos com a barragem...

Pintas disse...

Para variar é da 'praxe' criticar a obra feita.
Eu pelo contrário acho que já foi uma grande iniciativa e empreendimento a construção da barragem e posterior canais de rega, que ainda hoje empregam grande parte da população activa de Portugal e integram grupos empreendedores.
Quanto ao património histórico e cultural sacrificado cabe-nos a nós passar a palavra para que a nova geração não fique na ignorância.
Mas o Alentejo, de maneira nenhuma pode parar no tempo! 'Vamos ver o que o tempo nos reserva'

Ezul disse...

Pois, eu até estou interessada em dados mais concretos e tenciono obter mais informações e compará-las com a opinão das pessoas que por ali vivem!
:)

Bichodeconta disse...

Conheci a Vila da Luz ainda antes de submersa , já então me doía pensar que aquele espaço habitado em breve deixaria de o ser.Conheci depois a nova Aldeia da Luz que apesar de nova me pareceu despersonalizada.Fui duas ou três vezes ao Alqueva em construção, primeiro a terraplanarem dos terrenos circundantes, o levantar de espessas muralhas, as comportas, tudo de uma dimensão que não cabia nos meus horizontes de há muitos anos quando o Alqueva começou a ser falado e pensado.De permeio, há pessoas que se viram a braços com a terrível incumbência de desalojar os seus mortos para de novo os sepultar.Dor redobrada, não sei se justificada.Quando há tantos e tantos anos se começou a falar no Alqueva, falava-se que iria dar ao Alentejo a possibilidade de cultivar em regadio muitos e muitos hectares de terreno até aí incultos ou destinados a outras culturas de sequeiro..Volvidos estes anos, já voltei ao Alqueva, é de facto bonito, enorme, mas não cumpre qualquer propósito de quem o pensou. O Alentejo continua por cultivar e nós irremediável mente a consumir o que vem de fora aumentando assim o nosso défice.Nuestros Hermano ali á mão vão aproveitando o que deste lado se desperdiça também .Estas palavras não diminuem a grandiosidade da obra em si, Campo Maior , Monsaraz ficaram menos secos e quentes no verão, isso ´´e uma evidencia, mas ficará sempre a dor dos que viram submergir as suas casas, o lugar onde nasceram.Há coisas que nada apaga ou faz esquecer a não ser o tempo.As próximas gerações ouvirão contar a história, o Alqueva , Tem possibilidades imensas que neste momento os Portugueses desperdiçam.Quem por lá se passeia de barco, ou tem até a possibilidade de fazer férias numa casa flutuante, não sei se o quer fazer no Alqueva..Os tempos dirão.
O Alqueva começou há muito a ser falado, por enquanto está tudo por dizer e sobretudo por fazer.Um abraço, Ell

Sofá Amarelo disse...

O Alqueva é muito especial para mim pois acompanhei as obras desde 1998 até 2006. Volto lá todos os anos 2 ou 3 vezes, o meu poiso é sempre em Portel no Refúgio da Vila. E depois de ver estas imagens fico com uma vontade irresistível de lá ir... se não for agora pelo menos será em março ou Abril quando os campos estiverem cobertos e alfazema.

Muitos beijinhos!!!

perfume de laranjeira disse...

olá
Muito interessante este debate sobre o Alqueva.
Ainda sinto o cheiro dos arbustros e das flores e o zumbido dos insectos nas margens do rio no ano anterior ao enchimento, quando desci o Guadiana de canoa daquela pequena enseada antes de Mourão até à Aldeia da Luz.
Também fiquei muito sensibilizado quando pararam o enchimento duas semanas, penso, para salvarem os ninhos de cegonhas; estava em Castro Verde numa sessão sobre o António Gonçalves Correia - o libertário tolstoiano que fundou a primeira comuna em Portugal no Vale de Santiago e libertava pássaros no Jardim pùblico de Beja dando vivas à Liberdade - e disse na sessão de abertura que finalmente o Estado português lhe fizera justiça e lhe dera razão e apelidei-o de percursor do movimento hippie e com analogias aos Rolling Stones que tinham, actuado nesse ano em Coimbra.
No início deste ano preferi não ir a Monsaraz, tive receio de encontrar magotes de gente a profanarem aquele lugar mágico, e para mim tão simbólico...
Mas achei muito interessante o debate que aqui aconteceu.
Mas, Manela, prefiro a força imensa do Mar, o seu cheiro a maresia, a sua cor ora turquesa, ora azul cobalto, o seu poder que tanto me atrai... e às vezes gosto de desafiar... mas isso tem certamente a ver com as minhas vidas anteriores muito mediterrânicas.
Beijos
Ed.

Ezul disse...

Sabes, todos nós, os do Sul, sentimos essa saudade do Mediterrâneo… É como se estivesse entranhada na alma, nas nossas raízes, numa memória colectiva. Talvez fosse por isso que, durante alguns anos da infância, nos longos serões passados no monte à beira do rio, eu insistia em ouvir na rádio o som mágico e hipnótico das músicas marroquinas. Era uma atracção inexplicável, que ninguém conseguia compreender, ou justificar. Mais tarde, descobri um cantor-poeta extraordinário - Herbert Pagani, que cantou o Mediterrâneo numa das mais lindas canções que já ouvi:

“Fils du Printemps et d’une Juive
En pleine nuit j’ai vu le jour
Tu étais bleue, j’étais olive
Entre nous deux ce fut l’amour

Tu m'as bercé de tes silences
Je t'appelais Mémé d'Azur
Sur les play-backs de mon enfance
Je chante tes éclaboussures
O toi grand-mère de toutes les mers
Baiser de sel sur mes blessures

Oh Méditerranée, ma Méditerranée
Rien qu'à te voir de loin, mon pauvre cœur explose
Petit mouchoir tout bleu parmi les lauriers roses
Bleu comme une ecchymose après un long baiser

Je te connais par cœur, ma Méditerranée
T'es comme un livre ouvert, y a qu'à tourner les plages
Et dans tes transistors que sont tes coquillages
Tu chantes le Coran, La Bible et l'Odyssée”


Persegui o encanto pelo Mediterrâneo nas viagens que fiz, desde Marrocos ao Chipre. Porém, pressenti a saudade a nascer daquela vista assombrosa, junto a Tarifa, daquela proximidade, como se fosse possível estender o braço e tocar outro espaço, outra realidade… Como se ouvisse uma voz trazida do fundo do tempo:

“Plantei laranjeiras. Todo o Sul nasceu do seu perfume. E misturei-o nas águas dos açudes e das fontes para que os poetas se aspergissem com o seu doce aroma em tempos de paz. Por ti, nem sempre persegui o Norte e o calor pegajoso do sangue. Precisei do odor da flor da laranja, quando o tempo se esvaía, sem volta para te ver espreitar a ver se me vias - tão perto e eu já sem barco.
Houve poetas que voltaram. Nem todos eram livres como as aves que avistavam por entre as grades. E eu fiquei, sem alcançar a berma das águas, de onde queria estender o meu braço e tocar-te…”
:)

perfume de laranjeira disse...

Amiga
Falas da essência com a beleza. E isso é muito, muito bonito.
É lindíssimo o teu texto, tal como o poema cantado pelo Herbert Pagani.
Será que não é já tempo de ofereceres ao mundo a beleza da tua escrita?
Como deves saber se conhecemos (uma parte d)a vasta produção poética dos poetas luso-árabes do final do séc. XI isso deve-se ao poeta Ibne Bassame, que resolveu copilar para uma antologia a obra(e a sua) dos seus contemporâneos; o seu papel foi muito importante, mas... se Almutâmide, Ibne Amar, Ibne Sara ou cerca de quatro dezenas de outras poetas da época tivessem guardado para si os belíssimos poemas que produziram, certamente, a Vida para nós Amantes da (sua) Poesia, teria certamente menos beleza e menos fulgor. Permite-me transcrever aqui este belo poema de Ibne Sara, esperando para breve a publicação do teu livro... sabes que podes contar com os Amigos para os aspectos que menos te agradarem...

"Laranjeira

São as laranjas brasas que mostram sobre os ramos
a suas cores vivas
ou rostos que assomam
entre as verdes cortinas dos palanquins?

São os ramos que se balouçam ou formas delicadas
por cujo amor sofro o que sofro?

Vejo a laranjeira que nos mostra os seus frutos:
parecem lágrimas coloridas de vermelho
pelos tormentos do amor.

Estão congeladas mas se fundissem, seriam vinho.
Mãos mágicas moldaram a terra para as formar.

São bolas de cornalina em ramos de topázio
e na mão do zéfiro há martelos para as golpear.

Umas vezes beijamos os frutos
outras cheiramos o seu olor
e assim são alternadamente
rostos de donzelas ou pomos de perfume"

Ficamos à espera!
Beijos