domingo, 17 de janeiro de 2010

Histórias do rio


Esperar-se-ia que a chuva prolongada despertasse o rio, que fizesse correr as suas águas barrentas por entre os juncos e as rochas, desejosas de romper as margens. O caudal aumentou nos últimos dias, galgou os açudes das velhas levadas, deixou marcas na vegetação ribeirinha e arrastou alguns troncos, nada que se compare ao cenário da impetuosidade de outrora, quando as enchentes irrompiam pelas hortas e pelas azenhas, invadindo tanques e poços, alagando os caminhos, destroçando árvores e canaviais.




O rio guardou as suas histórias, contadas ao ritmo das estações e das vivências da população. Ficaram as memórias das grandes invernias que alteravam a inofensiva paisagem procurada por pescadores e lavadeiras – a triste memória de uma Maria Algarvia, surpreendida quando lavava; a inesperada fúria dos pequenos ribeiros, o do Mal Enforcado, ou o ribeiro de Valbom que, já noite dentro, arrastou o homem que se atreveu a passá-lo.



Quando as águas revoltas quase tapavam os arcos da velha ponte, as pessoas da vila acorriam para ver um rio irreconhecível. Rio abaixo, a água arrastava destroços, escavava a terra das raízes até roubar as laranjeiras, engolia as pedras cuidadosamente escolhidas pelas lavadeiras, as fontes de água férrea cuidadas pelos pastores, roubava as habituais passagens para a outra margem, forçando as gentes dos montes a um longo desvio.










Pego do Poço, ponte de Alcácer e, abaixo das levadas do Moinho da Abóbada, a rapidez da corrente e a altura com que a água se lançava contra os rochedos deixava avisos de superioridade e enchia as noites com o seu rugido. Era essa força que, no rochoso vale do Moinho da Azenha, escondido entre declives selvagens, forçava os moleiros a parar as mós, pois abriam as comportas para desviar a água. Por fim, o rio serenava.



Havia sempre quem fosse à procura dos mais estranhos objectos que água depositara. A vegetação regenerava-se, erguiam-se os juncos e as espadanas, limpavam-se os pegos e as fontes, apanhava-se o peixe…


Regenerava-se o rio, que só começou a morrer quando a poluição persistiu, por acção do homem. O mesmo homem que, ainda há pouco, veio ferir as suas margens com postes de alta tensão.


9 comentários:

Carlos Machado Acabado disse...

Também para mim, "o rio" se converteu, a dado passo da minha vida [muito precoce, de resto] em algo de verdadeiramente fundamental!
Quando, por razões várias que não vêm agora ao caso, tive de viver longe do País, numa cidade sem rio, recordo-me de fantasiar, a dado passo, quase obsessivamente, que, chegando a um dado ponto da cidade por onde forçosamente tinha de passar para ir trabalhar, um dia, havia de ver água---"O" rio.
Durante semanas a fio, alimentei esta ilusão absurda com a qual ia enganando as saudades da água e do sol que cresciam um pouco mais a cada dia que passava...
Uma noite, em casa de um português que vivia com uma belga, deparei, por mero acaso, com um monte de postais representando sobretudo Belém, a ponte e a beira-Tejo e, para meu enorme embaraço, não me contive e desatei a chorar como uma criança!...
Para mim, o rio tinha-se tornado numa espécie de encarnação material da própria saudade e quando a vida me permitiu regressar a Portugal, uma das primeiras coisas que fiz foi ir sentar-me junto ao rio para compensar o longo tempo de [dolorosa] separação.
Também mais tarde, quando dei aulas no Laranjeiro, vinha sempre a pé até Almada e adorava sentar-me no cacilheiro grande, cá fora, vendo as luzes reflectidas no rio e saboreando, numa íntima comunhão com a noite que caía com uma grave mas, ao mesmo tempo, familiar solenidade sobre o rio, partilhando daquela atmosfera mágica que nunca encontrei noutros lugares, em alguns dos quais como Veneza, achei, de igual modo, assinaláveis e até, eventualmente superiores, encantos.
Mas com aquele grau de íntima familiaridade e sentimento, nunca.
Quando morrer, quero que as minhas cinzas sejam lançadas ao Tejo, por muito idiota e até um pouco pomposo que isto possa parecer.
Acho que, nesses tempos de ausência como na ocasião mágica do reencontro, contraí para com ele uma dívida particular e secreta que só desse modo total e quase místico pode ser saldada.
Por muito retórico e até eventualmente exagerado [senão mesmo idiota...] que possa parecer...

Ezul disse...

Neste momento, depois de ler este comentário, torna-se ainda mais difícil usar as palavras... Já tive a ocasião de lhe dizer, a propósito de um relato que publicou no "Quisto", a emoção, a beleza, o sentido humano que encontrei nesses textos.
Um beijinho grande!
:)

Carlos Machado Acabado disse...

Fico muito sensibilizado pelas suas amáveis palavras, M.
E feliz por constatar que entende perfeitamente o segredo da minha relação íntima e particular com o rio...
Um beijinho---por isso também!

Carlos

Carlos Machado Acabado disse...

Um novo "apagão" no fluxo?...
Não posso crer!...

Sofá Amarelo disse...

Ribeira vai cheia e o barco parado... ou a navegar por outros lados porque o objectivo é tirar proveito da ribeira sem prover as necessidades da mesma... má sorte ser ribeira em certos sítios, mas pelo menos é água corrente... e se os rios correm para o mar as ribeiras correm com certeza para os rios...

Ezul disse...

Talvez por isso eu tenha sonhado os rios como "caminhos" de liberdade...
:)

Armindo C. Alves disse...

Gosto desse teu "Fluir da Terra". É um espaço agradável que vale a pena ver e ler. É como que o cantar de uma ave nas vastas planícies Alentejanas.
Vou voltar.
Cumprimentos.

(Obrigado pelas visitas e comentários)

Vieira Calado disse...

Bonitas imagens a ilustrar a preciosa água

que nos cai do céu!

Bjs

José Rasquinho disse...

Histórias que me transportam muitos anos atrás, ao meu convívio quase diário com o rio, quando ele, em tempo de seca, tinha mais água que agora em "tempo de cheia".
Agora quase que nem o sítio dele lá está!
Obrigado, pelas palavras e pelas imagens.