segunda-feira, 8 de março de 2010

Amendoeiras em flor

No imaginário popular guardaram-se as histórias dos tesouros que os Mouros enterravam bem fundo, ao fugirem dos Cristãos, e das desditas causadas pelas Mouras Encantadas que a eternidade aprisionou no fundo dos poços e das fontes, ou no cimo das torres arruinadas.


Mais a Sul, a Lenda das Amendoeiras narra o amor de um poderoso senhor árabe pela doce Gilda, escrava roubada às terras do Norte. Diz-se, de tal senhor, homem de guerra e de vitórias, de saques e de despojos, que desposou a mais bela de todas as escravas, a menina que retinha no olhar as lembranças das auroras boreais e no tom da pele o manto frio dos campos cobertos de neve.




Mas, ofuscado pelos cânticos que soavam do seu harém, pelo arco-íris das sedas e das jóias, pela voz melodiosa das cítaras e dos alaúdes, por todas as riquezas e honrarias que colocava ao dispor da amada, não lhe restava tempo para ler a distância que crescia no olhar de quem apenas ansiava pelo regresso a casa. E Gilda, dia após dia, deixou que o azul dos olhos se enchesse do nevoeiro das manhãs cinzentas; o corpo fraquejou, sem que os físicos acertassem no remédio, sem que o poder e a vontade do senhor do Algarve fizessem lei. Até que chegou quem compreendia o mal que a dor e a saudade causam na alma humana e que, por isso, aconselhou o dito senhor a plantar amendoeiras pelos campos algarvios.

Diz a lenda que assim se fez, e que Gilda, ao olhar as árvores floridas, se curou.



Só não ficou registado quanto tempo durou a Primavera! E desconhece-se se algum dia aquele sábio teve coragem para defender actos de liberdade, ou o fim do egoísmo. Ou, quem sabe, talvez me engane… Talvez o Senhor Árabe tenha tomado o rumo do Norte, em direcção às montanhas, aos campos cobertos de neve, trocando o Sol da sua pele morena pela luz de um olhar cheio de auroras boreais. Quem sabe se não terá sido ele a espalhar, quando da sua viagem, as flores de amendoeira que encontrei pelos campos do Norte.


Torre de Moncorvo

3 comentários:

perfume de laranjeira disse...

Interessante essa tua proposta de versão da lenda.
Quanto a cura de Gilda não serão o Amor e a (Vida em) Natureza os remédios absolutos para todos os males?!... a não ser que os doentes não se queiram curar.... Deve ter sido um passeio bonito, gostava de o ter feito... mesmo com poucos prenúncios de Primavera; mas ela vai chegar em breve... talvez no corpo de uma mulher (é o tema da próxima crónica na "Folha")... talvez uma moura encantada... quem sabe?!...

juju disse...

Daki a pouco haverá mais flores e muitos amores porque é tempo deles. dos amores e namorados!amores encantados que andam por aí a espreitar por todos os lados e a encasalar como loucos1... os pássaros, as flores, as borboletas ...as cores que salpicam os campos só porque um poeta qualquer passou por ali....

Manuel Luis disse...

Esses sábios viajaram mais para norte desprezando o sul que tão desfalcado esta de árvores. As amendoeiras que aqui florescem, estão velhas e desprezadas, mesmo assim mostram o seu encanto quando passamos e admiramos e permitem serem beijadas pelo insecto temido.