domingo, 30 de janeiro de 2011

O mercado municipal

Há largos anos que tenho o hábito de ir ao mercado. Porquê? Porquê... Gosto de mercados, da lembrança das “praças” que conheci na infância, bem distintas a do litoral e a da terra alentejana. Depois, atraída pelo movimento e pela cor, pelos sinais da fertilidade de uma terra, da vida e dos costumes de outras gentes, espreitei-os, sempre que me foi possível, nas cidades por onde passei. Guardei, das ilhas, o perfumado aroma dos frutos e a delicada mestria das flores de palha de milho, a extraordinária paleta de cores de um Mercado dos Lavradores; a paprika, em terras húngaras; o “sabe” encantamento de África negra; a força intensa das especiarias na Medina; a surpreendente visão dos espinafres selvagens (os nossos “catacuzes”) no mercado de Ceuta …

O mercado é um local de memórias – um local de histórias que ouvi, que imaginei, que conheci. Histórias de figuras típicas, de vendedores ambulantes, do vendedor que apanhava o peixe no rio, da velha Apolónia, de outros nomes que desapareceram, de bancas que ficaram vazias, da peça de barro, da figura do presépio, da fruta das hortas, do mercado mensal de roupa que acontecia no espaço exterior...

Recordo especialmente a imagem daquele velhote que estendia os seus produtos sobre uma saca, à esquina virada para a Rua Nova: ramos de oregãos e vasculhos em troca de uma moeda, uma preciosa moeda, certamente.

Há anos que o mercado deixou de atrair multidões. Outros tempos, outras ofertas, outras vivências que não se compadeceram com a beleza do edifício ou com a presença dos produtores locais, aqueles que ali trazem ainda o sabor genuíno da fruta e dos legumes, sem grande aparência mas com a qualidade de tudo o que nasce por obra de um saber antigo ainda aplicado nas hortas dos arredores. E há ainda por ali o molho dos oregãos apanhados nos valados, os cardos já ripados, os espargos, as azeitonas temperadas com a água da chuva, os dióspiros gelatinosos e maduros, as romãs e as nêsperas iguaizinhas às que íamos comprar às quintas: o mesmo sabor, sem tamanhos e cores impostas por decreto.

Hoje, procura-se reanimar o mercado. Chamam-se os produtores, mostram-se os produtos das associações locais, há espectáculos, diversifica-se a oferta, tenta-se combater o frio de quem continua, independentemente das condições, a tentar sobreviver. Mas há demasiadas ausências! Ainda que tenha aparecido mais gente, há muitas presenças que demoram. Concorrência dos hipermercados? Sem dúvida! O conforto de uma deslocação de carro para se encontrar no mesmo local tudo aquilo de que se necessita é um factor que não se pode ignorar mas, se para muitos já não se pode apelar a uma questão de memória ou de identidade, porque não pensar em razões tão simples e tão fortes quanto estas: a qualidade dos produtos e a sua origem. É que este pode ser o contributo de cada um de nós para ajudar a reanimar a produção local!


2 comentários:

maria sousa disse...

Porque para viver não chega a memória...é preciso afecto.
Estar presente sem amor, mata!

Ezul disse...

Memória, identidade, afectos...estamos, desde há muito, no tempo dos não-lugares. Nesses não existem afectos, só passagens breves e vazias. Mas há desafios e mudanças que nos forçam a pensar e a rever o modo como nos relacionamos com os espaços onde existimos. Acreditemos que, mais cedo ou mais tarde (esperemos que não aconteça demasiado tarde), as pessoas possam compreender isso mesmo.
:)