quarta-feira, 20 de abril de 2011

Safira

















Imaginara-a uma aldeia alinhada ao lado esquerdo da estrada, as casas próximas umas das outras, o tempo a diluir-lhes as memórias e a deixá-las morrer lado a lado. Mas não, apenas as primeiras casas se abeiram da estrada e, ao fundo, à direita, há a passagem para o suave monte por onde se dispersa a exígua povoação. Há um silêncio que vem primeiro, depois os sons dos pássaros e ouve-se o cuco ao longe, no montado. Outra casa, a figueira que dela fez seu chão, um forno que perdeu o cheiro do trigo, as hastes de marmeleiros sem fruto e as flores da esteva, grandes, brancas e bravias.

A Igreja, central, domina do alto da colina. Que mãos a terão erguido ali, impondo-a à simplicidade dos outros homens e às suas casas de barro que agora retornam à terra? Ao longe, do outro lado da charca, o branco de um muro e o cipreste a sobressair do montado – morte selvagem ou esquecida?
Safira, sob a fresca e húmida Primavera, onde esconderá a sua cor? Nos vestígios do azul que a Igreja guardou? No céu límpido dos dias em que soavam as vozes e os risos? Na tranquilidade que a velha amendoeira transmite? Safira tem cor de esmeralda, o verde que a terra fez nascer; tem a cor da telha, do tijolo, da pedra, da taipa, das paredes abertas (feridas ou libertas, quem sabe…); tem a cor da cal antiga e das frágeis pétalas de esteva salpicadas por gotas de chuva (talvez alguma lágrima do tempo)…

Registo a paisagem, o traçado das casas, a porta, a soleira, a janela, o beiral, a chaminé, o armário, a trave caída e o silêncio das memórias que não decifro mas que julgo pressentir. Talvez tenham ficado inscritas na taipa, talvez andem ao sabor do vento, talvez tenham ido também nas malas dos que partiram em busca de outros destinos…
Safira terá, um dia, definitivamente, a cor do céu azul e a cor da terra que o tempo deitará sobre a paisagem humana. Mas a voz da aldeia: a história das suas gentes, do seu quotidiano e das relações que a pequena comunidade estabeleceu com aquele espaço, essa voz alguma vez será escutada?



“Dentro de alguns centos de anos, outro viajante, tão desesperado como eu, neste mesmo lugar, chorará o desaparecimento daquilo que eu teria podido ver e que não aprendi.”
                                             Claude Lévi-Strauss, Tristes Trópicos

Um comentário:

marialascas disse...

Não a voz dessa gente morreu para sempre e somos os últimos a imaginá-la.
Nome precioso de um lugar precioso.
Mas falta veres um local que gostaria de partilhar contigo, quando a chuva nos deixar, para que a imaginação seja mais completa e complete o nosso respeito por este lugar.