quarta-feira, 27 de junho de 2007
Torre do Grangeiro

A donzela subiu à torre e a coruja voou pela janela.
Silenciosos campos vazios de gente!
A rapariga atravessou campos, seguiu por entre pastos entrelaçados de flores, pisou rudes terras marcadas pela esgalha das árvores e pelas manchas das queimadas.
A rapariga esgueirou-se por entre os silvados, guardou nos braços o perfume da hortelã brava e do orégão, entregou os pés à corrente do riacho.
A rapariga entreteve as horas à sombra do regadio, na cor que a segurelha pôs na borda dos regueiros, na seda que a água deitou à terra. E a noite abriu-se no suave luar que entra em casa e brinca sobre a colcha, as flores de palha e a cama de ferro.
A rapariga subiu aos montes, seguiu o piar da coruja, dançou na orla do montado.
E a resina das estevas fez-se da mesma pele, corpo abraçado à respiração morna da terra. No lugar onde os penedos, entrelaçados por secretos arbustos, escondem dos demais perfeitos gestos de príncipes errantes.
E tu, noite cúmplice, oculta-me de vozes que me procurem!
Subtil teia de prata e silêncio, sopro quente, força alada: teço sorrisos, fontes, searas! …
E quem saberá?
A rapariga teceu luas, na rua do monte, no recanto da chaminé. Aprendeu a canção de embalar, na rega da horta, na água da chuva. E medrou o trigo, abriram-se as papoilas, cresceram as searas.
Corre, menino, asas de colibri a pairar sobre o prado; flutua, menino, em ondas de feno e marés de flor. E foge para o monte, escala o granito, conquista os penedos! Do alto dos sonhos alcançarás caminhos para as estrelas, em leitos de musgo, em aviões de brincar. Sentada na eira, entrançarei coroas de madressilva e alecrim, com o vento…
Escuta! Ouves o melro e a rola? E a fala das árvores, das veredas, dos límpidos fios de água, das rãs, da fonte onde o gado vai beber? Rastos de coelho, vestígios de javali, poejos e cidreira, promessas de amoras…
Sabes dos cata-ventos e das flautas, do sabor da brisa e da cor do entardecer. Sabes do cheiro do barro molhado e da terra seca, do madeiro ardido. Sabes do começo das azinhagas, das vozes com que os campos ocultam o silêncio…
Acautela-te, menino, de cardos e espinhos!
A janela da velha torre dir-te-á quanta lonjura e aonde vão as azinhagas…
A rapariga ficou ao Sol, a saudar as andorinhas. Subiam passos nos degraus da Torre do Grangeiro.
sexta-feira, 15 de junho de 2007
sexta-feira, 1 de junho de 2007
Rio Almansor
Há imagens que captamos e que são mais do que meras paisagens. Guardamos na cor e na luz as sensações do momento. Como se o tempo se cristalizasse... Como se conservássemos num quadro a textura das folhas, os sons do campo, o desenho do espelho de água, as vivências humanas...
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