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sábado, 20 de março de 2010

Limpar Portugal!





Escolhidos os locais da intervenção, o grupo iniciou a recolha dos detritos e foi muito bom sentir que, nesta sociedade de hoje, ainda é possível conjugar esforços e lutar por objectivos comuns. Limpou-se um pouco da nossa terra, bastante até, a julgar pelos sacos que se foram amontoando nos sítios próprios. Quanto a Portugal! …
Foi gratificante observar o modo como as crianças se envolveram na caça ao lixo (e o contraste com a atitude dos dois jovens que, algumas horas antes, seguiam de carro por uma das ruas da cidade, atirando papéis pela janela) e acredito que esta acção valeu bem mais do que umas quantas palestras. Aliás, todo este movimento, sendo uma iniciativa de um grupo de cidadãos, valeu muito mais do que certos discursos empolgados sobre as questões ambientais. Esperemos que todos os participantes, e em particular os mais pequenos, continuem empenhados nesta causa, sem descuidos, por menor que seja o papelito do rebuçado, ou a garrafa de água que fica caída junto à mesa do piquenique. E que a dificuldade na recolha das enormes quantidades de plástico desfeito pela chuva e pelo sol, que se entranhava pelas ervas das margens da ribeira, não nos permita esquecer os efeitos tremendos que essa matéria produz na Natureza.
E amanhã? E daqui a alguns dias? Alguém afirmou que, dentro de algum tempo, tudo estará novamente cheio de lixo. Mas o lixo não é o único dos problemas. Houve quem recordasse as margens da ribeira e as hortas, as fontes sufocadas pelos silvados…recordações dos moradores, de quem assistiu ao esquecimento do rio, gradualmente engolido por ervas e silvas, por troncos derrubados pelo vento – a barreira que rouba as águas do Almansor, que faz temer outras consequências, que transforma o convívio entre as gentes e o rio numa memória cada vez mais distante.


Os dias passados na Pintada, os almoços à beira da fonte férrea, os banhos nos pegos, as pescarias… não são apenas registos de outras vivências, são opções negadas às gerações presentes! Este foi também um dos tópicos abordados nas Jornadas do Património, que decorreu no dia vinte de Fevereiro (quando outras ribeiras saltaram as margens) e, assim sendo, é caso para perguntar:


Não podemos recuperar o nosso rio?


domingo, 17 de janeiro de 2010

Histórias do rio


Esperar-se-ia que a chuva prolongada despertasse o rio, que fizesse correr as suas águas barrentas por entre os juncos e as rochas, desejosas de romper as margens. O caudal aumentou nos últimos dias, galgou os açudes das velhas levadas, deixou marcas na vegetação ribeirinha e arrastou alguns troncos, nada que se compare ao cenário da impetuosidade de outrora, quando as enchentes irrompiam pelas hortas e pelas azenhas, invadindo tanques e poços, alagando os caminhos, destroçando árvores e canaviais.




O rio guardou as suas histórias, contadas ao ritmo das estações e das vivências da população. Ficaram as memórias das grandes invernias que alteravam a inofensiva paisagem procurada por pescadores e lavadeiras – a triste memória de uma Maria Algarvia, surpreendida quando lavava; a inesperada fúria dos pequenos ribeiros, o do Mal Enforcado, ou o ribeiro de Valbom que, já noite dentro, arrastou o homem que se atreveu a passá-lo.



Quando as águas revoltas quase tapavam os arcos da velha ponte, as pessoas da vila acorriam para ver um rio irreconhecível. Rio abaixo, a água arrastava destroços, escavava a terra das raízes até roubar as laranjeiras, engolia as pedras cuidadosamente escolhidas pelas lavadeiras, as fontes de água férrea cuidadas pelos pastores, roubava as habituais passagens para a outra margem, forçando as gentes dos montes a um longo desvio.










Pego do Poço, ponte de Alcácer e, abaixo das levadas do Moinho da Abóbada, a rapidez da corrente e a altura com que a água se lançava contra os rochedos deixava avisos de superioridade e enchia as noites com o seu rugido. Era essa força que, no rochoso vale do Moinho da Azenha, escondido entre declives selvagens, forçava os moleiros a parar as mós, pois abriam as comportas para desviar a água. Por fim, o rio serenava.



Havia sempre quem fosse à procura dos mais estranhos objectos que água depositara. A vegetação regenerava-se, erguiam-se os juncos e as espadanas, limpavam-se os pegos e as fontes, apanhava-se o peixe…


Regenerava-se o rio, que só começou a morrer quando a poluição persistiu, por acção do homem. O mesmo homem que, ainda há pouco, veio ferir as suas margens com postes de alta tensão.


terça-feira, 14 de julho de 2009

Do Montado ao rio Almansor: alguns registos.

Igreja de S. Gens


Maio pinta-se de uma cor intensa, já de oiro semeado, no auge da vegetação e da maturação dos aromas. O Alentejo é assim, um campo estendido onde se guarda o perfume da nêveda, as flores bebidas pelas abelhas, as plantas que saciaram a fome e curaram as dores do camponês. Do adro de uma igreja, espaço onde a cal e o azul e o tempo inscreveram o rumor das crenças, só o voo das andorinhas a trazer o contraste do pasto envolvente. E os passos dos homens seguem os caminhos, que as cercas escondem, a reavivar os percursos e as memórias, com os olhares atentos, com os gestos, com a voz dos guias.




Moinho do Cosme

Arenária

O Montado, fértil e frágil, como toda a Terra, testemunho de vivências humanas, ou do seu abandono, como o mar de sargaços que invade os recantos, os silvados, os coelhos… As linhas de água apontam a direcção do rio, como as estradas que levam por montes e moinhos roídos pelo silêncio e pela partida dos homens, mas o rouxinol sublima a música do campo, o rumor das azinheiras e dos choupos, as finas correntes que alimentam o tapete de hortelã brava.

Moinho do Almansor





rio Almansor





A história do rio persiste na levada, a música da água a lembrar a cadência das mós, um modo de vida narrado pelo antigo moleiro. As mós, o açude, as zorras, esculturas que emolduram o espaço onde, na frescura do choupal, se apreciam os sabores do pão, do queijo e do vinho.

Mestre Zé Salgueiro

À sombra do loureiro gigante, a enxada de repouso, um tanque de rega, os sulcos húmidos que alimentaram a horta.
Depois a estrada conduz ao lagar de azeite, leito de água férrea de onde se perdera já a cor da oliveira. Que estórias ficaram por contar? A barragem, as pastagens do gado, o verde das vinhas, a adega… o percurso do passeio campestre organizado pelo CEDA e pela MontemorMel, no dia 16 de Maio, e mais fielmente relatado se prosseguirem por aqui.


Barragem do Raimundo

terça-feira, 7 de julho de 2009

Do Montado ao rio Almansor: as lições dos mestres

As plantas medicinais



Mestre José Salgueiro



“Ora senhoras e senhores, agora temos aqui uma outra que é o funcho. Eu comi muito disto quando eu era menino e era já criança. Primeiro, antes de ser criança fui menino, ou as duas coisas ao mesmo tempo. Isto primeiro… quando isto é pequeno e novo, isto escalda-se com água a ferver. É assim: coloca-se numa…numa tigela, vá lá, cortado, água a ferver para cima, lava-se. Essa água atira-se fora para não ter este gosto tão forte.”

“A raiz e as sementes e as flores…raiz, sementes e flores, serve para os homens e as mulheres se desenrascarem…naquelas marés precisas! Em chá, em chá, mas a raiz também tem uma outra aplicação muito melhor, é aquelas diarreias crónicas que são teimosas em não abalar de maneira nenhuma, um chá…”


A biodiversidade do Montado


Engenheiro Alexandre Pirata



Outras plantas medicinais





"... a minha mãe atafulhava-nos de bolota cozida. Às tantas a gente já não queria mas ela dizia: Olha, se não queres não comes mais nada. A azinheira dá quatro espécies de bolota..."



"Eu a ver se tirava aqui um musgozinho... mas não há aqui. Há aqui uns musgos brancos, aqui em certas partes da azinheira, esses musgos foram usados durante séculos pelos pastores. Porquê? Os pastores antigamente havia alguns que não tinham dinheiro para botas, aquilo era miséria terrível, usavam tamancos, tamancos, era... sola de madeira. Os homenzinhos de Verão andavam atrás do gado, chegava-se à noite com os pés todos feridos, todos feridos, todos assados. O que é que os homens faziam? No dia seguinte, de manhã, enchiam o tamanco de musgos de azinheira e pés adentro. Chegava-se à noite e já estavam completamente sarados e então era só esperar um dia ou dois e ficavam curados. Olha, cá está! É este musgozinho branquinho que está aqui mas era... em grandes quantidades! As mulheres faziam assim: arranjavam musgo destes e depois torravam um pouco para desfazer e peneiravam, as camponesas. Tinham isso dentro de um saquinho, ali para quando fosse necessário porque nesse tempo havia muitos lumes de brasa, lumes de lenha, lumes de lenha, e de vez em quando as crianças caíam e caíam e havia muita gente queimada, ao contrário de hoje. Hoje há outras braseiras. E então as mulheres faziam este... musgo era quase todo torrado e esmagado e peneirado, dentro de um saquinho. Uma criança caía ao lume, ela, de repente, já tinha à mão, já estava preparado. Azeite cru, punha sobre a queimadura rapidamente azeite cru, muito rápido, e depois musgo de azinheira ali em cima. O azeite era para o musgo segurar. Uma camada aí de meio centímetro de musgo, no outro dia a mesma coisa e aquilo não ampolava, não ampolava e ao fim de sete ou oito dias era só esperar que caísse a carapela. Caso contrário criava ampola e havia um sofrimento horrível."


O moinho do Almansor



Ti Zé da Gaita

“E depois o teigão tinha à parte de cima um atilho com uma cortiça atada à ponta e tinha assim uma forca… entrava e ficava com aquele eixo e tinha outro atilho com um chocalho atado. Quer dizer, a cortiça estava cá dentro do teigão tapado de trigo e a gente punha o chocalho em cima do atilho. Quando o trigo cá se acabava, o chocalho fazia assim, caía para cima da mó. Você nem queira saber o barulho que aquilo fazia, um gajo estava deitado, era obrigado a acordar. E então o que é que fazia, levantava-se, vinha cá, tratava do moinhozinho, catrapus, deitava-se outra vez e trabalhava ali uma hora, uma hora e…, tornava a tocar…”

“Era pago à maquia, de cem quilos, pagava dez. Você trazia cem quilos de trigo, só levava noventa de farinha. O farelo... ia com a farinha, havia de ficar para o moleiro, não? Depois isto tinha uma coisa, havia aquele moleiro que gostava do farelo da asa de mosca, era o farelo saído, e havia outro que gostava do mais remoído. A farinha com o farelo mais remoído tinha mais força…levantava o pão ou baixava.”