domingo, 31 de janeiro de 2010

Luz



Aldeia da Luz – 31 de Janeiro de 2010


“Trouxe-vos empregos, o Alqueva?”

“Trouxe agora, está tudo emigrado. O museu só lá tem duas pessoas. A … ficou com muita coisa, é tudo deles.
Não há trabalho, metem o gado aí no campo mas não dão trabalho...”

“Mas não fazem aqui passeios de barco?”

Os barcos não vêm aqui, só uma vez é que andou aí um barco com os reformados. Disseram muita coisa mas não há nada.”

“Onde ficava a aldeia?”

“ Vê ali aquela coisa branca? Era o depósito da água. As casas não se vêem, não se vê nada, foi tudo derrubado.
Ali ao fundo é um monte, tem quartos para as pessoas, alugam-nos. Vai-se dar a volta ali por aquela estrada… Este monte aqui é uma ilha, fez uma ilha.”

“Os Montes? Estão aí os espanhóis a comprá-los. Compraram um ali, outro ali…”

sábado, 30 de janeiro de 2010

Reflexo






Paisagem real ou mero pretexto para alcançar, sob a luz escassa e fugidia, a linha do horizonte, a reinvenção de um outro dia!



terça-feira, 26 de janeiro de 2010

As minhas flores preferidas II




Estas flores, as Saudades Bravas, foram fotografadas no início do Verão passado, bem perto da ecopista. Os idosos reconhecem-lhes propriedades medicinais; eu aprecio-lhes a beleza.
Não me consta que os poetas tenham perfumado livros ou versos com o seu ar singelo… talvez fossem enganados pela aparência desgrenhada das moitas… talvez não reparassem na variedade de cor, nos tons de púrpura…

A mim, seduzem-me! E hoje, decididamente, resolvi semear flores por aqui.
Porque assim, amanhã, der por onde der, hei-de sentir o perfume das veredas!

domingo, 17 de janeiro de 2010

Histórias do rio


Esperar-se-ia que a chuva prolongada despertasse o rio, que fizesse correr as suas águas barrentas por entre os juncos e as rochas, desejosas de romper as margens. O caudal aumentou nos últimos dias, galgou os açudes das velhas levadas, deixou marcas na vegetação ribeirinha e arrastou alguns troncos, nada que se compare ao cenário da impetuosidade de outrora, quando as enchentes irrompiam pelas hortas e pelas azenhas, invadindo tanques e poços, alagando os caminhos, destroçando árvores e canaviais.




O rio guardou as suas histórias, contadas ao ritmo das estações e das vivências da população. Ficaram as memórias das grandes invernias que alteravam a inofensiva paisagem procurada por pescadores e lavadeiras – a triste memória de uma Maria Algarvia, surpreendida quando lavava; a inesperada fúria dos pequenos ribeiros, o do Mal Enforcado, ou o ribeiro de Valbom que, já noite dentro, arrastou o homem que se atreveu a passá-lo.



Quando as águas revoltas quase tapavam os arcos da velha ponte, as pessoas da vila acorriam para ver um rio irreconhecível. Rio abaixo, a água arrastava destroços, escavava a terra das raízes até roubar as laranjeiras, engolia as pedras cuidadosamente escolhidas pelas lavadeiras, as fontes de água férrea cuidadas pelos pastores, roubava as habituais passagens para a outra margem, forçando as gentes dos montes a um longo desvio.










Pego do Poço, ponte de Alcácer e, abaixo das levadas do Moinho da Abóbada, a rapidez da corrente e a altura com que a água se lançava contra os rochedos deixava avisos de superioridade e enchia as noites com o seu rugido. Era essa força que, no rochoso vale do Moinho da Azenha, escondido entre declives selvagens, forçava os moleiros a parar as mós, pois abriam as comportas para desviar a água. Por fim, o rio serenava.



Havia sempre quem fosse à procura dos mais estranhos objectos que água depositara. A vegetação regenerava-se, erguiam-se os juncos e as espadanas, limpavam-se os pegos e as fontes, apanhava-se o peixe…


Regenerava-se o rio, que só começou a morrer quando a poluição persistiu, por acção do homem. O mesmo homem que, ainda há pouco, veio ferir as suas margens com postes de alta tensão.


sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

Em casa

Está frio e chove ininterruptamente. Fluirá a Terra? Certamente, mas a ansiar por sinais de renovação!
Esta noite, recuperaria algumas das fotos antigas (de flores e rios e árvores) mas um certo gato equilibrista derrubou o scanner, que para ali está arrumado a um canto, cheio de pecinhas soltas.
Assim, resta-me uma das janelas de Marvão!
O granito, a madeira, delicados bordados... recantos perfeitos que atenuam um pouco a crueza de outras imagens: as de uma Terra revolta, as da recorrente imperfeição das sociedades.

sábado, 9 de janeiro de 2010

Alqueva













Visitar Monsaraz é sempre uma oportunidade de viajar no tempo e de reencontrar um espaço único, como se a memória e a identidade se inscrevessem no xisto e na cal, no tear da artesã, no traçado de uma rua, num gato que espreita o sol, na saudação com que os habitantes nos acolhem.
Transformou-se a paisagem avistada lá do alto, a imensidão dos campos deu lugar ao grande lago, uma paisagem de assombro para quem se habituou à exiguidade das ribeiras e das albufeiras.
No ancoradouro, o nível da água comprova a intensidade da chuva neste Inverno. Há quem venha das aldeias mais próximas e recrie o limite da terra alagada, os espaços submergidos. Apontam o percurso da antiga estrada, da ponte… Memórias!
Ficaram as recordações. E o que trouxe o lago imenso? Campos verdes… Cultivados? Aldeias habitadas? Responder-nos-á o silêncio frio das ruas de onde se foram os raios solares e os idosos. Valha-nos a imagem de alguns olivais renovados. Pergunte-se agora às gentes que por ali permanecem se o sonho se cumpriu.

quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

sábado, 2 de janeiro de 2010

Paisagem de Inverno






Paisagem de Inverno ou… a primeira lição de desenho.
Esboço a carvão, obra de arte…
As aves escreveram a melodia. Quem escreverá o poema?



Gatos do monte




Na falta de uma lareira, não se duvide, a união faz… o calor!