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quarta-feira, 10 de março de 2010
Passeios de Primavera
terça-feira, 21 de abril de 2009
Doces tentações
Será a culpa da expansão marítima e da consequente viagem das plantas e das especiarias? Ai, as vastas plantações de cana-de-açúcar na ilha da Madeira e depois as culturas do Brasil...
Ai, o açúcar e a "conquista da cozinha", tentador domínio da doçaria conventual, onde a arte dos doces passou a ocupar os ócios das monjas!
Eram, e ficaram: o pão de rala, as barrigas de freira, a encharcada, as tibornas, os papos de anjo, o toucinho da abadessa, as fatias paridas, os londrinos, o toucinho do céu - tentações da terra que desceram aos claustros do Convento de S. Domingos.
"mea culpa!"
Valha-nos, porém, o ancestral uso das plantas medicinais, dessas que crescem pelos campos e que as gentes alentejanas usam, em infusões e em banhos, para curar chagas e maleitas. Como soube bem, uma tisana com propriedades digestivas, a curar os excessos do açúcar e os pecados do estômago.
sábado, 17 de janeiro de 2009
Pão e azeitonas
Nada melhor do que umas azeitonas novas, temperadas com oregãos, acompanhadas por uma boa fatia de pão caseiro.
Mas para que não fique qualquer travo na boca, aconselho um pouco de pão com água mel.
sábado, 3 de janeiro de 2009
A morte das oliveiras
Quando assisto a um cenário como este, não posso deixar de pensar, com nostalgia, nas oliveiras seculares que ainda se encontram por esses olivais, dos quais já se esqueceu o nome. Era nos buracos que o tempo abria nos troncos grossos e retorcidos, ou junto às raízes, que o imaginário das populações guardava as moedas de ouro, a riqueza dos mouros, lá fundo, bem fundo. Nos nossos olivais, antigos e mal cuidados, procuravam-se os espargos, ia-se ao rabisco da azeitona que depois, ano após ano, foi ficando por apanhar.
Por que razão cortam e arrancam oliveiras ainda novas? Talvez para abrir espaço para mais um desses montes descaracterizados, onde se vive um Alentejo de fim de semana… Talvez para fornecer árvores decorativas para mais uma rotunda, ou um jardim… Reconheço que as oliveiras dão uma beleza especial a esses lugares mas elas têm um papel na história humana que exigiria outro destino. Alguém revelou, uma vez, a sua perplexidade por considerarem que a oliveira é a árvore que representa a paz: a oliveira, de ramos contorcidos, enraizada em terrenos áridos… Mas quando olho para a mancha de verde cinza que deixam na paisagem, quando sinto aquela penugem com que as folhas se protegem da seca, sei da força intemporal com que resistem à aridez, até que os céus se partilhem de novo com a terra.
Sabiam os romanos da importância da plantação da oliveira e da produção do azeite; Alfredo Saramago contou-nos como este povo soube usar os frutos e o óleo na sua alimentação. Mas o azeite teve e continua a ter, felizmente, um papel importante na dieta mediterrânica. E aqui e além, assiste-se à plantação de novas árvores. Talvez assim se possa falar do futuro e não apenas da História.
Por que razão cortam e arrancam oliveiras ainda novas? Talvez para abrir espaço para mais um desses montes descaracterizados, onde se vive um Alentejo de fim de semana… Talvez para fornecer árvores decorativas para mais uma rotunda, ou um jardim… Reconheço que as oliveiras dão uma beleza especial a esses lugares mas elas têm um papel na história humana que exigiria outro destino. Alguém revelou, uma vez, a sua perplexidade por considerarem que a oliveira é a árvore que representa a paz: a oliveira, de ramos contorcidos, enraizada em terrenos áridos… Mas quando olho para a mancha de verde cinza que deixam na paisagem, quando sinto aquela penugem com que as folhas se protegem da seca, sei da força intemporal com que resistem à aridez, até que os céus se partilhem de novo com a terra.
Sabiam os romanos da importância da plantação da oliveira e da produção do azeite; Alfredo Saramago contou-nos como este povo soube usar os frutos e o óleo na sua alimentação. Mas o azeite teve e continua a ter, felizmente, um papel importante na dieta mediterrânica. E aqui e além, assiste-se à plantação de novas árvores. Talvez assim se possa falar do futuro e não apenas da História.
António Belo, no seu “Alentejo onde nasci”, conta como se fazia a apanha da azeitona na zona de Reguengos de Monsaraz, em meados do século XX. Essa era uma prática comum no Alentejo: estender os panais, varejar a azeitona, limpá-la de folhas e de ramos, apanhá-la por entre os torrões e as azedas, encher os cestos e depois as grandes sacas, onde não podia permanecer muito tempo, para não queimar. Era verdade que as mãos doíam do frio e que era preciso esfregá-las e escondê-las por entre a roupa, ou manter uma fogueira acesa ali por perto.
Nas pequenas economias domésticas, a família chegava para recolher a azeitona de um pequeno olival. Conheciam-se as oliveiras que davam a maçanilha, a bical, a cordovil. Em primeiro lugar, apanhava-se a azeitona para conserva ou para retalhar. Ao serão, junto à lareira, colocava-se a postos o balde e o retalhador: um tabuleiro de madeira com um orifício cheio de lâminas, por onde se iam empurrando as azeitonas, com destreza e cuidado, para não ferir os dedos. Depois enchiam-se as grandes tarefas de barro, deitava-se água, de preferência a da chuva, recolhida sob os beirais, mudava-se essa água diariamente e, quando estivessem doces, eram temperadas com sal, orégãos e louro. Ao fim de um dia, levava novamente água, que não se voltava a tirar. A restante azeitona era levada para um dos lagares da vila, de onde, depois de tirada a maquia, se trazia o azeite em potes de folha.
Na cozinha do meu avô, havia um desses grandes potes sobre o poial, junto aos alguidares de barro usados para amassar o pão. Ouvi contar que uma vez caíra lá dentro uma gata parda e que, a partir daí, a bichana passara a ter um pêlo lindíssimo. Do que me recordo bem é do azeite coalhado nos dias frios, do azeite usado nas lamparinas do oratório e nas rezas para tirar o quebranto e, sobretudo, das torradas feitas ao lume e barradas com azeite, sal e alho.
Nas pequenas economias domésticas, a família chegava para recolher a azeitona de um pequeno olival. Conheciam-se as oliveiras que davam a maçanilha, a bical, a cordovil. Em primeiro lugar, apanhava-se a azeitona para conserva ou para retalhar. Ao serão, junto à lareira, colocava-se a postos o balde e o retalhador: um tabuleiro de madeira com um orifício cheio de lâminas, por onde se iam empurrando as azeitonas, com destreza e cuidado, para não ferir os dedos. Depois enchiam-se as grandes tarefas de barro, deitava-se água, de preferência a da chuva, recolhida sob os beirais, mudava-se essa água diariamente e, quando estivessem doces, eram temperadas com sal, orégãos e louro. Ao fim de um dia, levava novamente água, que não se voltava a tirar. A restante azeitona era levada para um dos lagares da vila, de onde, depois de tirada a maquia, se trazia o azeite em potes de folha.
Na cozinha do meu avô, havia um desses grandes potes sobre o poial, junto aos alguidares de barro usados para amassar o pão. Ouvi contar que uma vez caíra lá dentro uma gata parda e que, a partir daí, a bichana passara a ter um pêlo lindíssimo. Do que me recordo bem é do azeite coalhado nos dias frios, do azeite usado nas lamparinas do oratório e nas rezas para tirar o quebranto e, sobretudo, das torradas feitas ao lume e barradas com azeite, sal e alho.
Açorda
Apresentar uma açorda, no início do ano, pode parecer de mau agouro por lembrar um tempo de escassez. Mas talvez assim não seja, se atendermos aos acompanhamentos servidos, ou ao preço que é praticado nos restaurantes. Certo é que a açorda, ou sopas de alho, confeccionada com a água do bacalhau, enriquecida com o peixe e os ovos escalfados ou cozidos, ou apenas com o sabor dos coentros, do alho e do azeite, sempre serviu à mesa do rico e do pobre. Consoante os gostos, a época do ano e as posses de cada um, era servida com sardinhas assadas ou fritas, pescada, os já referidos bacalhau e ovos, com figos, uvas, ou com uma mão cheia de azeitonas britadas.
O pão de trigo tem de ser duro e deve ser partido à mão. Deitada a água sobre a pasta de alhos, sal e coentros pisados, já regada com azeite (há quem acrescente tiras de pimentão verde), junta-se o pão ao caldo e tapa-se a tigela, para “abobrar”. Ah, e para quem aprecia, não esquecer que os coentros podem ser substituídos pelos poejos!
Então, nestes primeiros dias do ano, depois dos excessos gastronómicos, nada melhor para desenjoar! E vai daí, é uma boa medida para acautelar as finanças, que os dias não estão para desperdícios, nem das sobras do pão, agora que se anuncia a subida dos preços.
Então, nestes primeiros dias do ano, depois dos excessos gastronómicos, nada melhor para desenjoar! E vai daí, é uma boa medida para acautelar as finanças, que os dias não estão para desperdícios, nem das sobras do pão, agora que se anuncia a subida dos preços.
sexta-feira, 31 de outubro de 2008
Noite de bruxas
Mas se tiverem de percorrer caminhos, não se detenham nas encruzilhadas. Protegidos por bons agasalhos e botas impermeáveis, escutem os sons nocturnos e façam um esboço de dança... mas lamentem o pobre condenado que percorre as sete vilas encasteladas. Quanto não vale um serão à lareira, contar uma boa história de bruxas e lobisomens!
Abóboras esculpidas, não há! Ah, mas um feijão com mogango a fervilhar na panela de barro, um cozido de grão, uns brenhóis salpicados de açúcar e canela... E um bom chá de poejos, para afastar catarros que assustam mais que os medos.
Abóboras esculpidas, não há! Ah, mas um feijão com mogango a fervilhar na panela de barro, um cozido de grão, uns brenhóis salpicados de açúcar e canela... E um bom chá de poejos, para afastar catarros que assustam mais que os medos.
sábado, 25 de outubro de 2008
Cogumelos
Disseram-me, há uns dias atrás, que o tempo estava propício ao aparecimento de cogumelos. Com efeito, hoje de manhã, observámos alguns nos terrenos próximos das Caeiras e da ermida de S. Luís da Mougueira, mas não houve tempo para os fotografar, uma vez que o passeio tinha como destino conhecer os lindíssimos frescos de algumas ermidas e igrejas da região.
Recuperei as fotografias registadas noutros momentos e noutros locais, só porque sinto curiosidade pela sua forma, cor e volume.
Não os identifico, não sei reconhecer os que são comestíveis e nunca me atreveria a fazer, sozinha, a experiência. Contudo, em Maio, tive oportunidade de acompanhar quem os colhe e consome regularmente. Explicaram-me que quando estão muito abertos já não se podem aproveitar, indicaram-me alguns pormenores que caracterizam as espécies comestíveis e, logo depois, seguiu-se a demonstração culinária.
Pude comprovar o sabor extraordinário e a textura acetinada, apreciando sobretudo os boletos. Foi um verdadeiro festival gastronómico, que incluiu espargos e túberas. Quanto a estas trufas, espero um dia conseguir vê-las no campo. Por enquanto, guardo a memória de tais sabores e reservo para os dias de Novembro a recolha de bolotas doces e a confecção do bolo e do pão de bolota.
segunda-feira, 25 de agosto de 2008
Sabores de Verão II
Sopa de vagens de feijão frade
Outro dos pratos característicos do Verão é feito com as vagens de feijão frade que estufam num refogado de alho, cebola, louro, salsa e muito tomate maduro. Junta-se água para fazer o caldo e há quem coza também rodelas de batata. Podem escalfar-se ovos ou acompanhar as sopas com peixe frito. Por mim, prefiro juntar sementes de sésamo.
Outro dos pratos característicos do Verão é feito com as vagens de feijão frade que estufam num refogado de alho, cebola, louro, salsa e muito tomate maduro. Junta-se água para fazer o caldo e há quem coza também rodelas de batata. Podem escalfar-se ovos ou acompanhar as sopas com peixe frito. Por mim, prefiro juntar sementes de sésamo.
À sobremesa ou ao lanche, o sabor mediterrânico de uma fresca talhada de melancia. Pode acompanhar-se com pão mas esqueça-se o vinho, diziam. Também consta que a melancia, para refrescar, era aberta e deixada ao sol. Nunca experimentei mas no tempo em que almoçávamos nas hortas, a fruta refrescava nas fontes, nos poços ou nas correntes dos regatos.
Sabores de Verão I
Sopa de beldroegas
Apesar de também serem cultivadas, as beldroegas são essencialmente plantas bravias que proliferam por todo o lado, sobretudo nas hortas, onde infestam as culturas de Verão. Lembro-me de as ver junto dos pegos e das albufeiras e nas valetas onde caía a água da rega do milho ou da forragem. Por isso, era uma das ervas a que se recorria para fazer as sopas tradicionais.
A composição da sopa de beldroegas variava, de acordo com as possibilidades de cada um, como refere Aníbal Falcato Alves no livro ”Os Comeres dos Ganhões”: a sopa que leva o queijo e a sopa pobre, esta só condimentada com as batatas ou com os ovos escalfados.
No livro de recolha de receitas de Mértola, “Aromas e Sabores”, aos ingredientes habituais (as beldroegas, os alhos, o azeite e o pão), acrescentam-se a salsa, o tomate e a cebola. Em Viana do Alentejo, pude apreciar estas sopas acompanhadas com queijo fresco e com bacalhau.
No livro de recolha de receitas de Mértola, “Aromas e Sabores”, aos ingredientes habituais (as beldroegas, os alhos, o azeite e o pão), acrescentam-se a salsa, o tomate e a cebola. Em Viana do Alentejo, pude apreciar estas sopas acompanhadas com queijo fresco e com bacalhau.
Por estes lados, a sopa de beldroegas é cozinhada da seguinte forma: estufam-se em azeite as folhas de um molho de beldroegas, acrescentam-se as cabeças de alho inteiras e um queijo de ovelha curado cortado em quartos. Acrescenta-se a água para o caldo, juntam-se algumas rodelas de batata e, algum tempo depois, escalfam-se os ovos. Rectificam-se os temperos (gosto de incluir louro, pimenta acabada de moer e de exagerar no queijo) e deita-se o caldo sobre fatias de pão duro.
quinta-feira, 22 de maio de 2008
Ervas aromáticas
Segurelha
- Sopa de feijão verde
- Cozido de grão e abóbora
Mangerona
- Empadas
- Pratos de carne
Tomilho
domingo, 17 de fevereiro de 2008
Espargos com ovos
Segundo testemunhos orais, coziam-se as pontas dos espargos, que depois eram fritas na gordura da carne de porco. Acrescentavam-se depois os ovos batidos e misturados com miolo de pão duro.
Do livro "Aromas e Sabores", comidas de Mértola, editado pela Escola C+ S de Mértola e pela Câmara Municipal de Mértola:
- os espigos dos espargos, depois de pelados e lavados, partem-se e escaldam-se. São depois fritos com ovos.
terça-feira, 5 de fevereiro de 2008
Doces de Carnaval
Era na 5ª ou na 6ª feira antes do Carnaval que se começavam a fazer as “filhoses” e os pastéis de grão. Para a preparação destes fritos reuniam-se várias mulheres, familiares ou amigas, uma vez que eram feitas grandes quantidades, guardadas em grandes alguidares de barro tapados com um pano branco, que iam sendo consumidas até à Páscoa.
Filhós
Colocada a farinha de trigo dentro do alguidar de barro, abria-se nela uma cova, para onde se iam deitando os ovos, um a um. Aí se batiam e se iam envolvendo com a farinha, juntava-se depois a banha e ia-se amassando-se tudo. A pouco e pouco, acrescentava-se um púcaro de água em que se fervera ervas doces, pau de canela e cascas de limão.
Amassava-se tudo até a massa ficar enxuta, o que requeria algum tempo. Depois a massa era “sovada” em cima de uma tábua de tender (podia ser a tábua usada para o pão). A seguir era “tendida”: tiravam-se “rebolinhos” e, com o rolo da massa, iam-se tendendo até ficarem fininhas; com as mãos, também se ia trabalhando a forma das filhós. Podiam ser redondas, com uns cortes no meio, ou podiam ser tiras que se enrolavam num pau de oliveira bem raspado, para ficarem como rosas.
Pastéis de grão
Para fazer os pastéis de grão, também se usava a massa das filhós. Agora já se fazem com massa tenra mas, há anos atrás, não era assim.
O recheio consistia numa medida de grão para uma medida de açúcar. O grão ficava de molho durante um dia. Depois de cozido era pelado com um pedaço de cortiça e reduzido a puré. Acrescentavam-se o açúcar, as raspas de limão, o pau de canela e fervia tudo até ficar em ponto. Ao arredar, juntavam-se duas ou três gemas de ovo Este recheio ficava a arrefecer de um dia para o outro e só então se faziam os pastéis.
Para fazer os pastéis de grão, também se usava a massa das filhós. Agora já se fazem com massa tenra mas, há anos atrás, não era assim.
O recheio consistia numa medida de grão para uma medida de açúcar. O grão ficava de molho durante um dia. Depois de cozido era pelado com um pedaço de cortiça e reduzido a puré. Acrescentavam-se o açúcar, as raspas de limão, o pau de canela e fervia tudo até ficar em ponto. Ao arredar, juntavam-se duas ou três gemas de ovo Este recheio ficava a arrefecer de um dia para o outro e só então se faziam os pastéis.
E este é um exemplo do que se faz por um blog: pedir a uma tia que se recorde das velhas receitas e fotografar os doces que as vizinhas lhe ofereceram nesta época festiva. Mas é, sobretudo, uma forma de recordar a azáfama daqueles serões no monte, na velha cozinha de telha vã, em que tias e primas disputavam as filhós mais bem fritas, as “flores” mais Formosas, a massa mais fina. E mais do que isso eram os assaltos furtivos à cozinha nova, onde eram guardados os grandes alguidares de barro, cheios de massa dourada.
sábado, 2 de fevereiro de 2008
sábado, 12 de janeiro de 2008
Utensílios da cozinha alentejana
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