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domingo, 10 de abril de 2011

Pirliteiro




Pirliteiro, árvore do coração. Alguém, há muito tempo, lhe aparou os ramos e a fez ser mais do que um arbusto espinhoso à beira da estrada de ferro. E hoje olhei a árvore. Não tinha gestos para lhe dar mas mergulhei o coração na ondulação dos seus ramos. Talvez fosse a sua voz... 

terça-feira, 7 de julho de 2009

Do Montado ao rio Almansor: as lições dos mestres

As plantas medicinais



Mestre José Salgueiro



“Ora senhoras e senhores, agora temos aqui uma outra que é o funcho. Eu comi muito disto quando eu era menino e era já criança. Primeiro, antes de ser criança fui menino, ou as duas coisas ao mesmo tempo. Isto primeiro… quando isto é pequeno e novo, isto escalda-se com água a ferver. É assim: coloca-se numa…numa tigela, vá lá, cortado, água a ferver para cima, lava-se. Essa água atira-se fora para não ter este gosto tão forte.”

“A raiz e as sementes e as flores…raiz, sementes e flores, serve para os homens e as mulheres se desenrascarem…naquelas marés precisas! Em chá, em chá, mas a raiz também tem uma outra aplicação muito melhor, é aquelas diarreias crónicas que são teimosas em não abalar de maneira nenhuma, um chá…”


A biodiversidade do Montado


Engenheiro Alexandre Pirata



Outras plantas medicinais





"... a minha mãe atafulhava-nos de bolota cozida. Às tantas a gente já não queria mas ela dizia: Olha, se não queres não comes mais nada. A azinheira dá quatro espécies de bolota..."



"Eu a ver se tirava aqui um musgozinho... mas não há aqui. Há aqui uns musgos brancos, aqui em certas partes da azinheira, esses musgos foram usados durante séculos pelos pastores. Porquê? Os pastores antigamente havia alguns que não tinham dinheiro para botas, aquilo era miséria terrível, usavam tamancos, tamancos, era... sola de madeira. Os homenzinhos de Verão andavam atrás do gado, chegava-se à noite com os pés todos feridos, todos feridos, todos assados. O que é que os homens faziam? No dia seguinte, de manhã, enchiam o tamanco de musgos de azinheira e pés adentro. Chegava-se à noite e já estavam completamente sarados e então era só esperar um dia ou dois e ficavam curados. Olha, cá está! É este musgozinho branquinho que está aqui mas era... em grandes quantidades! As mulheres faziam assim: arranjavam musgo destes e depois torravam um pouco para desfazer e peneiravam, as camponesas. Tinham isso dentro de um saquinho, ali para quando fosse necessário porque nesse tempo havia muitos lumes de brasa, lumes de lenha, lumes de lenha, e de vez em quando as crianças caíam e caíam e havia muita gente queimada, ao contrário de hoje. Hoje há outras braseiras. E então as mulheres faziam este... musgo era quase todo torrado e esmagado e peneirado, dentro de um saquinho. Uma criança caía ao lume, ela, de repente, já tinha à mão, já estava preparado. Azeite cru, punha sobre a queimadura rapidamente azeite cru, muito rápido, e depois musgo de azinheira ali em cima. O azeite era para o musgo segurar. Uma camada aí de meio centímetro de musgo, no outro dia a mesma coisa e aquilo não ampolava, não ampolava e ao fim de sete ou oito dias era só esperar que caísse a carapela. Caso contrário criava ampola e havia um sofrimento horrível."


O moinho do Almansor



Ti Zé da Gaita

“E depois o teigão tinha à parte de cima um atilho com uma cortiça atada à ponta e tinha assim uma forca… entrava e ficava com aquele eixo e tinha outro atilho com um chocalho atado. Quer dizer, a cortiça estava cá dentro do teigão tapado de trigo e a gente punha o chocalho em cima do atilho. Quando o trigo cá se acabava, o chocalho fazia assim, caía para cima da mó. Você nem queira saber o barulho que aquilo fazia, um gajo estava deitado, era obrigado a acordar. E então o que é que fazia, levantava-se, vinha cá, tratava do moinhozinho, catrapus, deitava-se outra vez e trabalhava ali uma hora, uma hora e…, tornava a tocar…”

“Era pago à maquia, de cem quilos, pagava dez. Você trazia cem quilos de trigo, só levava noventa de farinha. O farelo... ia com a farinha, havia de ficar para o moleiro, não? Depois isto tinha uma coisa, havia aquele moleiro que gostava do farelo da asa de mosca, era o farelo saído, e havia outro que gostava do mais remoído. A farinha com o farelo mais remoído tinha mais força…levantava o pão ou baixava.”


terça-feira, 30 de junho de 2009

Um chá no monte


A chuva dos últimos dias trouxe à lembrança o passeio ao Monte das Gigantas, realizado no dia dezoito de Abril. Depois de uns dias bem luminosos e solarengos, aquele Sábado amanheceu chuvoso, o que não impediu o grupo de percorrer o campo com entusiasmo, ouvindo e registando os ensinamentos do mestre Custódio sobre as plantas medicinais.



Percorreram-se caminhos e veredas, parte da ecopista, e por todo o lado se foram encontrando inúmeras plantas medicinais.



Gradualmente, o Sol foi colorindo a manhã, os campos e a rua do monte, onde o grupo puxou do farnel, para saborear, logo de seguida, a aromática infusão de plantas do campo preparada pelo Sr. Custódio e pela Juvenália. Depois do almoço foi a vez de espreitar as plantas que os nossos amigos, cuidadosamente, foram plantando por ali (algumas delas trazidas de bem longe), oferecendo assim a possibilidade única de se conhecerem plantas já difíceis de encontrar.





O Monte das Gigantas é, por isso, o palco de um projecto, ainda modesto, mas que traduz o amor pela terra, o respeito por um saber popular a que se deu continuidade e que se vai valorizando com os passeios organizados no próprio Monte, ou com estas iniciativas do Posto de Turismo. Pela Primavera, nada como combinar uma visita a este local para aprender os segredos dos “chás”, apreciar os sabores da fruta biológica, ou para conhecer a arte do barro. Serão bons momentos de saber e de simpatia, para recordar.

domingo, 22 de fevereiro de 2009

A homenagem ao Mestre José Salgueiro



“Há muito que é nas margens deste cantar
Que me sento de manhã ao pôr do dia
Para ouvir o canto da cotovia
Que todos os dias me vem visitar.”


Foi a vez de cantar ali perto do rio, na Casa do Alentejo, no dia 7 de Fevereiro, na homenagem organizada pelo CEDA. Mestre Zé Salgueiro levou até à cidade a sua poesia e um saber enraizado no campo e em muitas gerações, que enriqueceu graças à enorme sede de conhecimento que o levava, já em criança, a ler tudo o que podia, nomeadamente o jornal que pedia emprestado na mercearia. Foram esses Relatos de uma vida, percurso de noventa anos vividos no Além Tejo, que foram cantados em verso na cidade à beira-rio.


“O frondoso freixo como alguém disse
Há tempos em merecidos louvores
É bom no combate a todas as dores

Em chá e retarda-nos a velhice.



Não ficaram por desvendar os segredos das plantas e mezinhas, que apresentou perante um público atento. Ele, que explica a sua vitalidade pelo regime alimentar que segue fielmente, pelas virtudes do seu tão apreciado chá de freixo, ou da tisana de alecrim.



Imperdível é assistir às lições dadas em pleno campo, quando Mestre Zé encontra as mais variadas plantas medicinais e vai descrevendo as suas aplicações. Nos Passeios da Primavera (organizados pela Marca), nunca faltam os preciosos ensinamentos sobre plantas, os relatos das suas vivências, os comentários que exprimem o seu olhar atento e crítico sobre a sociedade.




Também a obra Ervas, Usos e Saberes, comprova a riqueza do seu discurso. Nas páginas deste livro, a descrição das propriedades medicinais das plantas vai-se intercalando com uma autêntica geografia da região de Montemor, com relatos das suas vivências e com um vasto saber acumulado ao longo dos anos.
Nesta homenagem, não faltaram os poemas e as melodias de outro alentejano: de Sol a Sul, numa voz que nos enche a alma e nos faz regressar às horas mornas e tranquilas, em que o tempo parece tornar eterno tudo o que há de bom na terra e na vida.

quinta-feira, 31 de julho de 2008

Plantas medicinais


Era no meio rural que a prática da medicina natural era mais corrente, fruto de um saber próprio das gentes mais idosas, transmitido oralmente e pela experiência quotidiana, ao longo das gerações.

“Erva arcádia e calafito
Que os pastores tanto usavam
São de um leque infinito
Os males que elas curavam”

José Salgueiro, Ervas Medicinais e Saúde, Marca, 2004
(José Salgueiro – ervanário e poeta popular)

Flor de Sabugueiro

Havia a crença nas propriedades medicinais das plantas, enraizada nas vivências próprias do mundo rural, onde a natureza representava o meio fundamental de sobrevivência. Aí se aprendia a conhecer as plantas, recolhidas para aplicar em mezinhas, para a alimentação de pessoas e de animais, ou para produzir diversos objectos de uso quotidiano. Era na natureza que residiam todos os segredos e também os sortilégios, mas estes, apenas para quem soubesse dominá-los. Esse conhecimento, quando reconhecido como um “dom” pessoal e intransmissível, indicava a existência dos chamados “virtuosos”, curandeiros de renome, cujos dotes tinham sido demonstrados desde cedo e logo passavam de boca em boca, indo a sua fama além das localidades mais próximas.

Nêveda

As plantas sempre fizeram parte do rol dos medicamentos prescritos ao longo do tempo e facilmente se encontram referências ao seu uso em diversos documentos como, por exemplo, o Regimento dos Farmacêuticos de Évora, de 1497, que fará alusão às azedas, avencas, beldroegas, borragem, erva cidreira, funcho, hortelã, losna, murtinhos, salva, entre outras.



Funcho

Embora a maioria das pessoas conheça um número limitado de plantas, que são usadas para solucionar os males mais frequentes, (http://www.scribd.com/doc/4023807/Plantas-medicinais-Alentejo), existe uma enorme variedade, que se ingere, ou que se aplica externamente, sob a forma de emplastros ou de banhos.


Na listagem das ervas usadas, registam-se:

a agrimónia, a alfavaca da cobra, o alecrim, a alfarroba, a raiz do alcaçuz, a raiz de alteia, a avenca, a bolsa de pastor, o boldo, a borragem, o cardo santo, a raiz de cardosola, a cinco em rama, a flor de carqueja, a diabelha, o dente de leão, o eucalipto, a escabriola, o estevão macho, a erva casqueira ou erva alcaide, a erva cidreira, a erva pau, a erva férrea, a erva terrestre, a erva cavalinha, a erva de são roberto, a raiz de funcho, a flor da figueira da índia, os goivos amarelos, a raiz de grama, a raiz da hortelã brava, a hera, o hipericão, a hortelã pimenta, a folha de laranjeira, a folha de limoeiro, a folha e a flor de malva, a flor de manjerico, a folha e a flor de marmeleiro, o mirtilo, a mangerona, a folha de nogueira, a folha de morangueiro, a nêveda, a folha de oliveira, a papoila, a pimpinela, o poejo, o rabo de zorra, as pétalas de rosas bravas, a salva mansa, a salva brava, a salva real, a salsa parrilha, a flor de sabugueiro, a sempre-noiva, a sargacinha, a silva branca, a raiz de sete sangrias, a tramagueira, a tília e a urtiga branca.



Hortelã-pimenta

Os “chás”, ou combinam as plantas adequadas a cada tipo de problema, ou incluem aquelas que são benéficas em qualquer situação. O número de plantas que entra na infusão tem de ser ímpar, normalmente são 5 ou 7 plantas. O preceito a seguir: “Fazer o chá de ……, fervendo tudo junto num litro de água, para beber durante o dia, tomando-o 18 dias seguidos”
Os “banhos” devem ser feitos de manhã e à noite, durante 15 ou 18 dias.



Pimpinela

Todos estes elementos foram recolhidos oralmente e baseiam-se em práticas a que pude assistir, desde a identificação, a recolha, a secagem e a utilização de algumas das plantas referidas. Actualmente, as associações culturais e de turismo de natureza proporcionam passeios no campo, orientados por populares entendidos no assunto, que permitem observar muitas plantas e conhecer os seus usos mais comuns. De registar que as designações de algumas plantas variam consoante as localidades, existindo também algumas diferenças nas propriedades medicinais que lhes são atribuídas.



Marmeleiro