Este é um dos primeiros cabazes que recebi e, se o fotografei, não foi apenas por querer divulgar esta iniciativa, que considero verdadeiramente louvável. De facto, um projecto desta natureza contribui para promover os pequenos produtores locais (esses rostos conhecidos, cujos projectos de vida devemos apoiar) e, ao mesmo tempo, garante ao consumidor um conjunto de produtos muito frescos e de qualidade. Outro aspecto interessante consiste no facto de se conhecer os produtores, do contacto que se estabelece e da possibilidade de visitar as hortas onde se cultivam todos estes legumes. É que eu sempre gostei de hortas: das que eram feitas nos montes, dos canteiros que eu também semeava, das hortas das quintas aonde íamos comprar os legumes de Verão e, hoje em dia, dos recantos com morangueiros e aromáticas que tento preservar no quintal.
Voltando ao cabaz, no dia em que os fui levantar, cheguei à Junta de Freguesia cansada de correrias. Peguei na caixa, espreitei o seu conteúdo e coloquei-o rapidamente no carro. Mas depois, quando me dirigia a casa, comecei a sentir um cheiro intenso a horta e foi como regressar à frescura das tardes de Verão passadas nas quintas, onde a água da rega levantava o odor dos sulcos de terra e dos pés de hortelã e segurelha.


Dessas hortas, recordo vivamente os grandes tanques, normalmente cobertos por parreiras, e as fontes de água fresca onde se pendurava o corcho de cortiça. Era junto às fontes, à sombra de uma árvore, ou numa mesa de pedra (geralmente, era a mó de uma das azenhas da região), que se faziam os piqueniques. Só que não ia tudo feito de casa. Pelo contrário, era ali mesmo que se preparavam a salada de tomate e pepino, o gaspacho (com a água da fonte) e que se assavam as sardinhas e os pimentos. Para sobremesa, as ameixas amarelas ou vermelhas, cujo sabor apenas recupero quando compro a fruta aos camponeses que se deslocam ao mercado municipal, aos sábados.

Quando conheci um oásis tunisino, pequeno espaço fértil com verdejantes legumes e perfumada menta, de que recordo especialmente as romãzeiras e as tamareiras, lembro-me de ter pensado que já os tinha encontrado há muito tempo, no Alentejo. Na Tunísia, a visita a essas hortas insere-se num itinerário turístico que dá a conhecer a cultura e o modo de vida das populações. Pois por cá, no mercado, quando compro a qualquer hortelão, trago sempre, em dois dedos de conversa, um conhecimento de gerações e um pouco da nossa identidade. Dizia-me um deles, há uma semana, em jeito de pedido de desculpa, que pedia um euro e meio por dois molhos de beldroegas porque davam mais trabalho do que andar a colher o feijão verde. E eu disse-lhe que sabia que era mesmo assim. Gosto de refazer, nesses diálogos, o desenho do feijão enfileirado, a cor a amadurecer nos tomateiros, as plantas dos melanciais, as beldroegas agarradas à terra húmida… E eles gostam de saber que não encontro, seja em que hipermercado for, o mesmo sabor genuíno.
E é por tudo isto que continuo a ir ao mercado e que encomendo o cabaz do hortelão.