terça-feira, 25 de maio de 2010

Certos paraísos










Há certos paraísos que têm a dimensão humana, na verdadeira (naquela que queremos que seja a mais genuína) acepção da palavra. Como paisagem enquadrada num espaço classificado que merece a atenção daqueles que zelam pela defesa do ambiente e pela preservação das espécies, aspecto imprescindível para a manutenção do equilíbrio desta terra que somos todos nós, não deixa de guardar em si os traços das vivências camponesas, daquelas comunidades que tão bem conheciam, de forma empírica, o verdadeiro significado de ecossistema e de biodiversidade. Pouco interessará proferir aqui o nome do lugar, da ribeira, do açude, das gentes que percorrem estes trilhos, alguns dos quais guardam ainda esse aspecto rude e selvagem das barreiras de xisto, de um chão de terra piçarrenta; fundamental será revelar como a população da aldeia ainda guarda a memória de uma salutar relação com o campo, com o prazer dos banhos no rio e das travessias sobre os seixos, as correntes ainda límpidas, as pescarias sob o abrigo dos recantos mais frondosos.
Campos de trigo - searas, ramos de papoilas e de malmequeres, lírios do monte, maios espalhados pelas barreiras, uma orquídea despercebida…e a apanha da espiga, a memória do trabalho, o conhecimento das plantas e dos caminhos, a memória dos montes e da famílias, das alcunhas, o reconhecimento dos locais que acolhem as famílias e o grupos na segunda-feira de Páscoa… Não há palavras de ordem; alguém colhe uma flor aqui e ali, pois colhe… mas os sinais de satisfação por uma terra que se mantém como a memória guardou são tantos, que não podemos deixar de acreditar que há, algures, certos paraísos guardados na identidade de uma comunidade camponesa.












terça-feira, 18 de maio de 2010

Deslumbramento





Campo de soagem - a intensidade da cor de Maio. Apoteose! Que mais poderão dizer as palavras, que não seja o intenso e absoluto deslumbramento?

segunda-feira, 17 de maio de 2010

De novo a beleza








Prende-me o olhar, este galope solto num prado de Maio – o sangue fogoso, a força elegante – sobre a erva que uma chuva miudinha fez brilhar.

Beleza







A beleza surge assim, quando menos se espera, à beira de um caminho, em lugares recônditos. Selvagens, bonitas e discretas, as pequenas orquídeas são registos singulares da preciosidade de uma terra que urge sentir e respeitar, de uma terra que é o próprio destino humano. Comover-se-á o homem com o seu próprio destino? Não será o seu gesto mais recorrente, o de estender a mão para quebrar a haste e ceifar a vida?
Estender a mão, tocar levemente, sacralizar todas as formas de vida...
Talvez aconteça um dia!

terça-feira, 4 de maio de 2010

Maio de encantos!



Vêm-me à lembrança, neste mês de Maio, palavras de Brecht guardadas de uma exposição que impressionou vivamente o meu tempo de aprender Abril:

Como poderá o Homem comover-se com a Arte, se esta não se comover com o destino dos Homens?






Poderá a terra fluir se a voz humana não ecoar na esperança do verde, no sangue vivo da papoila, no fruto da seara que amadurece? Poderá o homem perder-se desta vontade de ser cor e seiva e flor e fruto - chão fértil, haste fecunda - a dádiva conquistada?



Oh, Maio! Maio de encantos, de Primavera - idade adulta, flor de vida, primeiros frutos…
Oh, Maio, que a cor de Abril não se dilua em chãos de nada, em espigas secas, em vontades abandonadas!



Em Maio:
o encanto do mais terno gesto que nos traz a beleza do cântico e do carácter!