sábado, 29 de dezembro de 2007

Natal

"O ano novo entrava por um dia de vento e de aguaceiros.Céu pardo, terra transida..."
Fialho de Almeida

"O Céu, de um azul ternamente açucarado, só pela tarde se tingiu de uma espessa neblina, vinda dos prados."
Antunes da Silva

"Sem o vento e o frio, a neve ou a chuva, a gostosa melancolia do Natal não tarjava a existência fabulosa destas festas familiares."
Antunes da Silva


"Viesse o frio e a neve, quando vinha, pois dava gosto sentar-se um homem à lareira e aí, entre um copo de vinho e um naco de linguíça assada em aguardente, não sentir desamor por ninguém. Olhem o singeleiro do "monte" que carrega, já sol posto, o maior madeiro do monturo que estará aceso dia e noite, do Natal ao Ano Bom."
Antunes da Silva

quinta-feira, 29 de novembro de 2007

Natal das Pequenas Coisas

Hoje queria começar a construir “O Natal das Pequenas Coisas” mas a máquina digital avariou de novo. Queria usá-la na tentativa de encontrar as imagens perfeitas: a folha dourada que restou nos troncos da árvore, a textura rugosa de um nódulo do ramo da salva… Queria procurar o silêncio da busca que orienta a visão para a teia inundada de orvalho, as gotículas de humidade nos filamentos das hastes verdes, os restos do pasto, o insecto, a lagarta, as pequenas coisas… Porque as pequenas coisas nos olham em silêncio e nos enchem de voz, sem necessidade das palavras com que temos de preencher os dias. Porque as pequenas coisas são infinitamente maiores que as conversas e os cumprimentos de circunstância, os refrões profissionais, os papéis sociais. As pequenas coisas confortam-nos e trazem-nos de novo a casa. E deixam-nos olhar, ver, pensar, escutar, sentir… Cada Natal é uma listagem de lugares vazios, de gestos, de risos, de expressões e timbres ausentes de voz; são gestos e matéria física que não se toca nem se alcança. São-no os idosos, os jovens, os conhecidos, as referências a nomes sem rosto, aqueles que conhecíamos de vista e que deixaram de passar à nossa porta, que deixámos de encontrar no café, nos rituais quotidianos… São-no cada animal que partilhou o nosso espaço com o seu jeito de exprimir emoções, com a sua forma muito própria de rasgar sorrisos e transmitir afectos. Porque deles não trouxemos as mãos vazias: nos seus corpos sedosos e quentes enchemos a concha dos dedos e a paz do coração, na música de um ronronar, de um miado tranquilo. Incompreensível, cada desaparecimento. A noção recorrente de eternidade prende-se à nossa fragilidade, resiste à dúvida, ao agnosticismo, à lógica… para os humanos… Mas, e os outros seres? Quem disse que é justo o esquecimento? Quem disse que posso passar afectos como se fossem páginas de um livro que se folheia sem retorno? Realidade das pequenas coisas, só ela me confronta com as verdades da existência e me descentraliza de uma noção injusta do universo.

sábado, 17 de novembro de 2007

Saudade dos ribeiros. Saudade da chuva!

Um dos habitantes da ribeira de Valverde.

Crescem nas frestas das rochas, à beira-rio.




Ribeira de Valverde. "Descoberta" do último Verão.





Com o abandono dos "montes", a tramagueira apoderou-se dos nossos caminhos, pedra a pedra.






O Pego do Poço, há alguns anos, quando se podia nadar, pescar...










terça-feira, 6 de novembro de 2007

Floreiras




Moinho da Pintada
Em pleno campo, guardaram-se as flores com cuidado. Cuidadas, acarinhadas,
assim fosse a Terra, ferida de um Verão tardio e sequioso.



Em pleno campo, à porta de casa, plantam-se flores ano após ano, canteiros coloridos , bordaduras de hortas.



Igreja de S. Mateus













Mistérios de granito

Penedo intocado em território de antas e de menires. Altar da Terra!

sexta-feira, 2 de novembro de 2007

Montado

Discretas mas perfeitas, as pequenas flores de Setembro que descobri há muitos anos, selvagens, a crescer por entre os rochedos da ribeira. Escolhi um nome para elas: Siljas, como a personagem de um livro de um autor premiado com o prémio Nobel... Durante algum tempo floriram num projecto de jardim, mas a beleza não se prende, não se guarda em redomas. Reencontrei-as onde a vida é autêntica.

Continuavam cheias de vida: mundo minúsculo...

Não resistimos a registar a sua imagem.






sábado, 27 de outubro de 2007

Menir do Tojal

Caminhos antigos do homem, marcas impressas na paisagem, remotos passos. Que olhares e anseios projectaram a nascente?

Pelos campos alentejanos

A chuva demora a vir, o ar da manhã corta e a tarde queima, num estranho Outono que inquieta. Ainda há espelhos de água na paisagem, e há flores que teimam... Debaixo dos sobreiros, chão juncado de bolotas, a paz dos rebanhos... E o verde da terra a renascer? Ainda tão hesitante!... E aproveitam-se os caminhos firmes, os dias claros, percursos de descobertas, momentos de osmose, a tranquilidade dos dias.

terça-feira, 31 de julho de 2007

Flores do Alentejo

Agora o calor é abrasador, dói na pele, sufoca a respiração, tolhe os gestos. Esgotou-se o verde, desvaneceram-se as cores, queimadas pela cor do pasto. Só as oliveiras, de verde cinza, as azinheiras e os sobreiros. Mas a quem se afoite ao ardor das tardes, os silvados dos valados ou da beira-rio oferecem deliciosos cachos de amoras.
De Abril, Maio e Junho, guarda-se a memória das cores campestres.

Soagem

Saudades bravas
Verbasco

Madressilva

Pampilhos

Rosmaninho
Maios

Flores das hortas

Esteva

Dente de leão

Corriola

Dedaleira

Camomila

Malva
Borragem

quarta-feira, 27 de junho de 2007

Torre do Grangeiro

A rapariga entregou os pés à corrente do riacho...

Perfume de hortelã e segurelha na frescura do regadio...

No lugar onde os penedos, entrelaçados por secretos arbustos...

E a resina das estevas fez-se da mesma pele...

Entrelaças coroas de madressilva e rosmaninho...

Saberás então aonde te levam as azinhagas..






Torre do Grangeiro


A donzela subiu à torre e a coruja voou pela janela.


Mal soavam os meus passos na escadaria, antes que me acautelasse da velha madeira do sobrado, esgueiraste-te como esboço de ave de mistério, qual dama senhorial da torre velha… Não sabes que os meus olhos se atraiçoavam nas marcas que a voragem do tempo cravou no reboco, nas traves picadas e esfareladas… incapazes de prever que podias caber dentro do meu olhar? Também eu uso este vão de janela: toda a lonjura que se aquieta sobre o azinheiral e, bem marcado, à distância de uma escrita de fogo ou de luz, o supremo domínio das muralhas.
Silenciosos campos vazios de gente!

A rapariga atravessou campos, seguiu por entre pastos entrelaçados de flores, pisou rudes terras marcadas pela esgalha das árvores e pelas manchas das queimadas.

Cautela! Não se enredem passos e corridas nas sobras de azinho; não se afundem meus pés soltos nestes cardos e folhas secas… Céleres (o espanto!), coelhos saltam do mundo mágico das estevas. Sei do seu território, acerco-me: aldeias de tocas afundadas, nem que espreite!... E atrevem-se, abeiram-se da frescura da horta, que a linha dos choupos e a mancha dos fetos são guias. Também eu, mesmo que o céu se esqueça das estrelas, leio o musgo que cobre o lado norte dos troncos das árvores. E danço com as ramadas da azinheira de frutos mais doces, aonde iam os homens, à socapa, à vinda do moinho, quando o guarda se distraía da cobiça alheia.

A rapariga esgueirou-se por entre os silvados, guardou nos braços o perfume da hortelã brava e do orégão, entregou os pés à corrente do riacho.

Prodigiosa, cristalina água, aonde levas essa cor de terra e cinza que trocaste por cintilações de prata? Ficarei contigo e esquecerei o tempo; só a tua voz, apenas as histórias que os choupos velhos contam e a canção do rouxinol, à luz do sol, à luz da noite. Não adormeças, rouxinol, sobre a videira! Fica alerta, que dos meus olhos se arredou a sonolência do estio, e canta-me a imensidão do céu, a frescura do regato, a singela flor da silva…

A rapariga entreteve as horas à sombra do regadio, na cor que a segurelha pôs na borda dos regueiros, na seda que a água deitou à terra. E a noite abriu-se no suave luar que entra em casa e brinca sobre a colcha, as flores de palha e a cama de ferro.

Abro a janela a todo o silêncio da noite, que canta cá dentro. O som dos grilos, os odores, o toque que a Lua me deixou ficar na ponta dos dedos. Se me deitasse sobre os penedos, vestes de luz me entregaria… E o musgo é cálido, as rochas são cetim, e o corpo é escasso… Fosse leve e voaria!... Quem me chamasse, assim me teria: oh, doces princesas que nos silvados se encantaram, temíveis feiticeiras que nos barrancos se acoitaram, sustos e medos que o meu espanto não calaram!

A rapariga subiu aos montes, seguiu o piar da coruja, dançou na orla do montado.
E a resina das estevas fez-se da mesma pele, corpo abraçado à respiração morna da terra. No lugar onde os penedos, entrelaçados por secretos arbustos, escondem dos demais perfeitos gestos de príncipes errantes.


Envolve-me no teu manto, serena noite, antes que se abreviem os afagos. Ouves suaves trinados de pássaros quase adormecidos? … Um restolhar mansinho?… Um odor de flores e pasto?… Braços serenos como a água dos açudes…
E tu, noite cúmplice, oculta-me de vozes que me procurem!
Subtil teia de prata e silêncio, sopro quente, força alada: teço sorrisos, fontes, searas! …
E quem saberá?

A rapariga teceu luas, na rua do monte, no recanto da chaminé. Aprendeu a canção de embalar, na rega da horta, na água da chuva. E medrou o trigo, abriram-se as papoilas, cresceram as searas.

Corre, menino, asas de colibri a pairar sobre o prado; flutua, menino, em ondas de feno e marés de flor. E foge para o monte, escala o granito, conquista os penedos! Do alto dos sonhos alcançarás caminhos para as estrelas, em leitos de musgo, em aviões de brincar. Sentada na eira, entrançarei coroas de madressilva e alecrim, com o vento…
Escuta! Ouves o melro e a rola? E a fala das árvores, das veredas, dos límpidos fios de água, das rãs, da fonte onde o gado vai beber? Rastos de coelho, vestígios de javali, poejos e cidreira, promessas de amoras…
Sabes dos cata-ventos e das flautas, do sabor da brisa e da cor do entardecer. Sabes do cheiro do barro molhado e da terra seca, do madeiro ardido. Sabes do começo das azinhagas, das vozes com que os campos ocultam o silêncio…
Acautela-te, menino, de cardos e espinhos!
A janela da velha torre dir-te-á quanta lonjura e aonde vão as azinhagas…


A rapariga ficou ao Sol, a saudar as andorinhas. Subiam passos nos degraus da Torre do Grangeiro.









sexta-feira, 1 de junho de 2007

Rio Almansor

Há imagens que captamos e que são mais do que meras paisagens. Guardamos na cor e na luz as sensações do momento. Como se o tempo se cristalizasse... Como se conservássemos num quadro a textura das folhas, os sons do campo, o desenho do espelho de água, as vivências humanas...

quarta-feira, 23 de maio de 2007

Fluir da Terra

Fluir da Terra:
Que soem as vozes, as palavras que cantam a terra, o mar, as estrelas…
Que se exalte a luz matinal, o crepúsculo a anunciar melodias nocturnas.
Que se envolva a dança do aroma do pasto nos trilhos de luar, nos afagos que o sopro das ramadas vem entregar à pele…
E saber-se-á, assim, do nosso encontro: plantas e aves, água, terra e rochas, vento, luz e astros…
E todos os seres!