No imaginário popular guardaram-se as histórias dos tesouros que os Mouros enterravam bem fundo, ao fugirem dos Cristãos, e das desditas causadas pelas Mouras Encantadas que a eternidade aprisionou no fundo dos poços e das fontes, ou no cimo das torres arruinadas.

Mais a Sul, a Lenda das Amendoeiras narra o amor de um poderoso senhor árabe pela doce Gilda, escrava roubada às terras do Norte. Diz-se, de tal senhor, homem de guerra e de vitórias, de saques e de despojos, que desposou a mais bela de todas as escravas, a menina que retinha no olhar as lembranças das auroras boreais e no tom da pele o manto frio dos campos cobertos de neve.

Mas, ofuscado pelos cânticos que soavam do seu harém, pelo arco-íris das sedas e das jóias, pela voz melodiosa das cítaras e dos alaúdes, por todas as riquezas e honrarias que colocava ao dispor da amada, não lhe restava tempo para ler a distância que crescia no olhar de quem apenas ansiava pelo regresso a casa. E Gilda, dia após dia, deixou que o azul dos olhos se enchesse do nevoeiro das manhãs cinzentas; o corpo fraquejou, sem que os físicos acertassem no remédio, sem que o poder e a vontade do senhor do Algarve fizessem lei. Até que chegou quem compreendia o mal que a dor e a saudade causam na alma humana e que, por isso, aconselhou o dito senhor a plantar amendoeiras pelos campos algarvios.
Diz a lenda que assim se fez, e que Gilda, ao olhar as árvores floridas, se curou.

Só não ficou registado quanto tempo durou a Primavera! E desconhece-se se algum dia aquele sábio teve coragem para defender actos de liberdade, ou o fim do egoísmo. Ou, quem sabe, talvez me engane… Talvez o Senhor Árabe tenha tomado o rumo do Norte, em direcção às montanhas, aos campos cobertos de neve, trocando o Sol da sua pele morena pela luz de um olhar cheio de auroras boreais. Quem sabe se não terá sido ele a espalhar, quando da sua viagem, as flores de amendoeira que encontrei pelos campos do Norte.
Torre de Moncorvo