terça-feira, 30 de março de 2010

Renovação

Flores

Era preciso agradecer às flores
Terem guardado em si,
Límpida e pura,
Aquela promessa antiga
Duma manhã futura.

Sophia de Mello Breyner

sábado, 20 de março de 2010

Limpar Portugal!





Escolhidos os locais da intervenção, o grupo iniciou a recolha dos detritos e foi muito bom sentir que, nesta sociedade de hoje, ainda é possível conjugar esforços e lutar por objectivos comuns. Limpou-se um pouco da nossa terra, bastante até, a julgar pelos sacos que se foram amontoando nos sítios próprios. Quanto a Portugal! …
Foi gratificante observar o modo como as crianças se envolveram na caça ao lixo (e o contraste com a atitude dos dois jovens que, algumas horas antes, seguiam de carro por uma das ruas da cidade, atirando papéis pela janela) e acredito que esta acção valeu bem mais do que umas quantas palestras. Aliás, todo este movimento, sendo uma iniciativa de um grupo de cidadãos, valeu muito mais do que certos discursos empolgados sobre as questões ambientais. Esperemos que todos os participantes, e em particular os mais pequenos, continuem empenhados nesta causa, sem descuidos, por menor que seja o papelito do rebuçado, ou a garrafa de água que fica caída junto à mesa do piquenique. E que a dificuldade na recolha das enormes quantidades de plástico desfeito pela chuva e pelo sol, que se entranhava pelas ervas das margens da ribeira, não nos permita esquecer os efeitos tremendos que essa matéria produz na Natureza.
E amanhã? E daqui a alguns dias? Alguém afirmou que, dentro de algum tempo, tudo estará novamente cheio de lixo. Mas o lixo não é o único dos problemas. Houve quem recordasse as margens da ribeira e as hortas, as fontes sufocadas pelos silvados…recordações dos moradores, de quem assistiu ao esquecimento do rio, gradualmente engolido por ervas e silvas, por troncos derrubados pelo vento – a barreira que rouba as águas do Almansor, que faz temer outras consequências, que transforma o convívio entre as gentes e o rio numa memória cada vez mais distante.


Os dias passados na Pintada, os almoços à beira da fonte férrea, os banhos nos pegos, as pescarias… não são apenas registos de outras vivências, são opções negadas às gerações presentes! Este foi também um dos tópicos abordados nas Jornadas do Património, que decorreu no dia vinte de Fevereiro (quando outras ribeiras saltaram as margens) e, assim sendo, é caso para perguntar:


Não podemos recuperar o nosso rio?


quarta-feira, 10 de março de 2010

Passeios de Primavera

Depois de meses intermináveis de frio, chuva e horizontes fechados, a extraordinária luminosidade dos últimos dias vem despertar uma vontade imperiosa de partir à (re)descoberta de percursos, de paisagens e de sabores da região alentejana. Não sendo possível conciliar todas as actividades, reste-nos, ao menos, o apontamento das feiras, dos festivais e das caminhadas, para utilização futura, desejando que a Primavera tenha, finalmente, começado a instalar-se por aqui. Ficaram para trás a Feira dos queijos de Serpa, o ciclo gastronómico “As Ervas da Baronia” (Alvito), o Festival das Açordas (Portel) mas… aí estão outras razões para saltitar de terra em terra: a Feira do Azeite de Vale de Vargo (Serpa), o festival “A Pão e Laranjas” (Vidigueira) e, se não falhar, uma Feira de Plantas Aromáticas, Alimentares e Medicinais (Orada – Borba). Bem sei que não referi os festivais gastronómicos de caça, ou dos outros sabores do Montado, mas esses reservo para quem os aprecie. Por mim, fico-me por um bom pão caseiro, uma mão cheia de azeitonas, um queijito de ovelha, uns espargos ou cardos, o aroma dos poejos e da hortelã e, de preferência, pela possibilidade de calcorrear veredas e azinhagas, de seguir o curso das ribeiras e de admirar a biodiversidade das Serras e dos Montados. Ah, e depois de cada passeio pelo campo, um momento para escutar a sabedoria dos mestres artesãos, dos velhos pastores e bordadeiras ou de algum idoso como aquele que, ainda ontem, por volta de um meio-dia ensolarado, se desviou do seu caminho só para me vir perguntar, numa alegria infantil e perfeita que apontava para o céu: “Quanto dá por um dia assim?”
:)

segunda-feira, 8 de março de 2010

Gatos, cães e chuva


“Mas que tempo… será que se petisca algo por aqui, ou só há guarda-chuvas partidos?”




“Ai chove? Deixa chover!!! Não é por isso que vamos deixar de brincar!”

Amendoeiras em flor

No imaginário popular guardaram-se as histórias dos tesouros que os Mouros enterravam bem fundo, ao fugirem dos Cristãos, e das desditas causadas pelas Mouras Encantadas que a eternidade aprisionou no fundo dos poços e das fontes, ou no cimo das torres arruinadas.


Mais a Sul, a Lenda das Amendoeiras narra o amor de um poderoso senhor árabe pela doce Gilda, escrava roubada às terras do Norte. Diz-se, de tal senhor, homem de guerra e de vitórias, de saques e de despojos, que desposou a mais bela de todas as escravas, a menina que retinha no olhar as lembranças das auroras boreais e no tom da pele o manto frio dos campos cobertos de neve.




Mas, ofuscado pelos cânticos que soavam do seu harém, pelo arco-íris das sedas e das jóias, pela voz melodiosa das cítaras e dos alaúdes, por todas as riquezas e honrarias que colocava ao dispor da amada, não lhe restava tempo para ler a distância que crescia no olhar de quem apenas ansiava pelo regresso a casa. E Gilda, dia após dia, deixou que o azul dos olhos se enchesse do nevoeiro das manhãs cinzentas; o corpo fraquejou, sem que os físicos acertassem no remédio, sem que o poder e a vontade do senhor do Algarve fizessem lei. Até que chegou quem compreendia o mal que a dor e a saudade causam na alma humana e que, por isso, aconselhou o dito senhor a plantar amendoeiras pelos campos algarvios.

Diz a lenda que assim se fez, e que Gilda, ao olhar as árvores floridas, se curou.



Só não ficou registado quanto tempo durou a Primavera! E desconhece-se se algum dia aquele sábio teve coragem para defender actos de liberdade, ou o fim do egoísmo. Ou, quem sabe, talvez me engane… Talvez o Senhor Árabe tenha tomado o rumo do Norte, em direcção às montanhas, aos campos cobertos de neve, trocando o Sol da sua pele morena pela luz de um olhar cheio de auroras boreais. Quem sabe se não terá sido ele a espalhar, quando da sua viagem, as flores de amendoeira que encontrei pelos campos do Norte.


Torre de Moncorvo