segunda-feira, 29 de dezembro de 2008

Brinquedos

Mais uma vez, o mercado mensal de Vendas Novas, pouco antes do Natal. Acrescento umas miniaturas à colecção de artesanato: a “chocolateira”, os cântaros, o tacho para os assados, o “migalheiro”… Para compor a fotografia, acrescento um dos bordados que eram colocados na chaminé.



Estas peças de barro, há uns bons anos, não podiam faltar nas brincadeiras. Aliás, era nos pequenos tachos e panelas que se faziam as primeiras experiências culinárias: uma sopa ou arroz cozinhados à beirinha da lareira, ou numa das fogueiras que se acendiam na rua do monte. Era aí que se armava a cantareira.




Nos “patrimónios do nosso brincar, brinquedos e jogos das 4 cidades”, há uma referência a estes brinquedos: “Lá na altura do S. João é que ela comprava um brinquedozinho, um desses de barro, uma tigelinha de forno, um baciozinho ou uma cantarinha…”. Só no Verão, porque no Natal o que se comprava era alguma roupa ou comida.




Pois não me fiquei pelos barros e escolhi também uma carroça. Disseram-me que é uma carroça típica da Amareleja porque tem uma “ponte” atrás. É certo que não me recordo de ver tal peça nas carroças que circulavam pela vila de Montemor, mas essas lembranças já estão muito diluídas… lembro-me das grandes rodas de madeira e de umas carroças que tinham rodas de pneu… A carroça do Zé da Alberta, a carroça da mulher que recolhia as sobras para alimentar os porcos, os carros que iam descarregar os sacos de trigo ao moinho e, sobretudo, a carroça do meu avô e as viagens ao chafariz para encher os vários cântaros.

domingo, 28 de dezembro de 2008

Pardais















Parecem bandos de pardais à solta… e são! Irrequietos e ruidosos como crianças no recreio, levantam voo dos campos como uma explosão de asas. Pousam nas oliveiras, saltitam no chão, espantam-se e lá vão de novo, enquanto a tarde não escurece, até ao campo verdejante.

Presépios II









Santiago do Escoural

quarta-feira, 24 de dezembro de 2008

segunda-feira, 22 de dezembro de 2008

Presépio


Tenho o musgo, não aquele musgo seco e leve, que cresce nos troncos das oliveiras, nem o aveludado, o que se agarra às rochas. Prefiro o que cresce por baixo dos pastos ou sob as moitas dos carrasqueiros. Sacudo-o cuidadosamente para que solte a terra e limpo-o durante algum tempo, retirando-lhe os pastos, as folhas secas.
Tenho as figuras de barro iguais às dos presépios de outrora. Consegui comprar as últimas peças, esquecidas na banca do mercado. Faltam-me a camponesa, a ponte, o poço, o moinho…



Imagino os campos e os montes. Este é, sem dúvida, o “maravilhoso reino verde”. Sempre foi! Traço os caminhos de areia, a água do lago espelha-se por entre os seixos, há uma ponte improvisada, prados verdes onde as ovelhas permanecerão tranquilamente. Por entre os rochedos, uma gruta de mistérios, a esconder os cristais, lápis-lazúli… Florestas de pinheiros, carvalhos, carrascos, medronheiros e murta… A magia dos reis, caravana exótica que percorre as terras férteis até chegar ao estábulo de cartão e casca de pinheiro. A estrela brilha, lá em cima! Acrescentarei incenso e uma pequena vela e, à noite, quando o maravilhoso reino verde iluminar a casa silenciosa, voltarei a juntar-me aos pastores e aos magos.

Outras plantas no Natal


Murta




Pirliteiro

domingo, 21 de dezembro de 2008

sexta-feira, 19 de dezembro de 2008

sexta-feira, 12 de dezembro de 2008

Os segredos de Monfurado

Conta-se, de Monfurado, que a serra testemunhou a ancestral presença humana e que aí existe um valioso património natural. Dos diversos lugares da serra, sabe-se onde persistem a miragem do ouro e as feridas abertas das minas, onde os cultos telúricos ergueram o granito, onde se fez sagrado o chão aberto como ventre materno. E o Tempo inscreveu nas ruínas dos conventos a introspecção e o silêncio ritual que acolhe o encontro do vento e das vozes de uma fauna secreta e fugidia.
Nas proximidades das minas da Nogueirinha, testemunhei como o crepúsculo se abre aos sons e aos movimentos de um outro mundo: os pássaros cantam para anunciar o seu local de repouso e depois o grito da coruja rasga a noite, o coaxar das rãs emoldura as águas prateadas de uma albufeira, o aroma do rosmaninho e da arruda intensificam-se, voos de morcegos desenham o ar…

Mas aqui é um outro percurso da serra, num outro tempo, quando a chuva entranha na terra e escorre pelo verde exuberante das heras e dos musgos. Após o nevoeiro, descobrem-se corredores onde as árvores se agigantam, poderosas e intensas; descobrem-se caminhos de terra ladeados por mato, tojo, murta, silvas e gilbardeira… a presença da ribeira do Escoural… pontes de pedra…manchas de lama onde ficou o vestígio de uma Gineta? Saca-rabos? Gato-bravo?



Nem o Inverno silencia os pássaros e os rebanhos! Percorrem-se os trilhos e fecham-se as cercas. No montado, a marca branca dos anos, o húmus, as teias cintilantes, o tom laranja dos cogumelos, um xadrez de sombra e de luz…



E do cimo das colinas, avista-se o monte isolado, a dança de um cão que festeja a presença humana.


Fonte Ferrenha

Os montes – muitos deles abandonados e em ruínas; outros, recuperados por quem veio de longe.

Fonte Ferrenha – Persiste o branco da cal, a contrastar com a cor férrea da água. Dizem que as suas águas eram procuradas pelas mulheres grávidas. Continuará o “cocho” de cortiça a servir para matar a sede das gentes da terra?

quinta-feira, 11 de dezembro de 2008

Gilbardeira


A gilbardeira cresce em sítios sombrios, sob os emaranhados de silvas e arbustos. Foi muito usada para fazer vasculhos. É o "azevinho" dos campos alentejanos, planta que deve ser protegida.

domingo, 7 de dezembro de 2008

Histórias de vida

“Algumas destas peças são de linho, são trabalhos feitos por senhoras com oitenta anos, que estão no lar.”
Encontro semelhanças com os bordados que guardo, já nem sei em que gaveta, feitos por uma das avós. Tinham tempo e paciência, as avós!
Oitenta anos! Sorriem às pessoas que passam e se estas se detêm, fazem-lhes um apelo tímido, as vendas revertem a favor das pessoas do lar. E eu, que sempre preferi o barro, a madeira, ou a cortiça, escolho um pano de tabuleiro, singelo e perfeito, pensando que sempre terá utilidade se o oferecer a alguém.
Depois reparo que já as tinha encontrado em Novembro, na feira da aldeia. Só agora percebo onde fica o lar!
Juntam-se outras pessoas, surgem amigos comuns, descobrem-se laços de parentesco, contam-se histórias de há muitos anos. Motivada por este encontro, uma das idosas recorda a família numerosa “éramos tantos e agora já só tenho aqui uma prima”, “moram longe, passam-se meses que não os vejo”, “tenho cá uma casinha tão boa mas então, estou no lar…”
E a seguir há alguém que relata as razões que trouxeram até àquela terra, àquele lar, a senhora do olhar sereno, a que nos convida a parar e a ver… Contam que a doença lhe levou a única filha…que ficou sem casa… Os olhos denunciam uma mágoa contida, os dedos deslizam pela face num gesto rápido. Esforçamo-nos por recuperar o tom de festa. O sorriso regressa, a mesma serenidade. Lições de vida!


quinta-feira, 27 de novembro de 2008

Feira de artesanato

Primeiro fim-de-semana de Novembro, início da tarde. Passámos os Foros e as terras de Lavre, rumo à aldeia. No ano passado, nos terrenos circundantes, via-se o corte da lenha, um amontoado de madeiros. Desta vez, a urze floria à beira da estrada. Floria, em pleno Outono, e pelas ruas da aldeia em festa, não senti o fumo das lareiras acesas, um cheiro característico, acolhedor, que me devolve às ruas dos montes que conheci.




Mas, no espaço onde decorria a feira, esperava-nos o sabor quente das castanhas e do vinho, os risos dos encontros e das visitas, um café fumegante e uma taça de doce de abóbora. Banca a banca, a textura da cortiça, o talhe da madeira, a imaginação aplicada no feltro e nas tintas, a tecelagem do vime, o mosaico do retalho, a conjugação das cores. Artesanato tradicional ou experiências novas, gestos de reformados, ocupações caseiras, percursos jovens ou histórias de toda uma vida.




As palavras contaram a história de um bordado, de um ponto cruz - técnicas aprendidas num tempo que já é de saudade. Vieram de um lar e trouxeram as emoções, o carinho e a arte entrelaçadas nas linhas das rendas, um orgulho pouco disfarçado na exibição do talento e na confissão da idade, a vontade de contar a quem pergunta, a quem admira, a quem ouve.



Contaram, sem pressa, as actividades agrícolas e a utilização das alfaias reproduzidas. Deram conta das horas necessárias para talhar cada pormenor. Um museu – nascido da arte e da sabedoria das mãos, da vivência da terra, da experiência de uma vida.



Três nomes a registar, nesta aldeia e neste universo de saber: João Clemente, o mestre da cortiça; Florindo Louro e Custódio Barroso, mestres da arte da cestaria - senhores de uma arte e de um conhecimento que partilham, generosamente.

Ermida de Santa Margarida


Quando a Lua espreita os dias


e o Sol espalha oiro nas ramadas


comungo do silêncio tranquilo das tardes


nas proximidades da ermida.