domingo, 13 de janeiro de 2008

"O Maltês"

“- Quem me roubou o Sol que vai tão alto?”
Manuel da Fonseca


O Maltês
Manhã fechada de Inverno. Tudo gotejava ao longo da vereda; a erva, orvalhada pela noite, emergia gradualmente da névoa que cobrira os valados. O maltês já se erguera, cedo desperto pela noite mal dormida que lhe entorpecera os membros, feixe de ossos tolhidos pelo frio nocturno. Triste sina! - Gemera num assomo de revolta e de resignação. Não fosse a fome abrir-lhe o estômago até às costelas, desaparecesse o desconforto da humidade e Zé Valadas desafiaria, com um esgar, o céu alumiado por uma cor sem sol.
Zé Valadas tinha agora o objectivo de chegar a um monte e morder uma côdea de pão, esperançoso também de um sorvo de café com borras. Se a fome abrandasse, daria depois rumo aos pensamentos que, para os vagabundos, se formam de ilusões que os outros não alcançam, por desconhecerem que há homens que se unem ao solo castanho, às folhas caídas, ao húmus. E Zé Valadas tinha no seu destino testemunhar o raiar das manhãs e o cerrar das tardes, os risos e as feridas dos dias, o sol e a lua, o ciclo das estações e da vida.
Calcou a terra ainda empapada. Talvez o sol doirasse a tarde e enxugasse os campos. Talvez a caminhada lhe ficasse menos pesada sem as azinhagas a prenderem-lhe as botas. Por ora, era forçar os passos à beira dos terrenos, sem se perder dos caminhos. Do longe soava o ladrar do cão. Casa grande, para lá da albufeira e do pomar. Há sempre sobras, há sempre pão…
Zé Valadas parou, olhar agarrado pelas laranjas caídas. Douradas., semienterradas na lama mas sãs. Pegou nelas, limpou-as nas ervas. Inteiras, pesadas, únicas! Uma a uma, foram desaparecendo no alforge quase vazio. E o maltês, já sem olhar para a casa, retornou aos campos. Talvez em direcção a uma venda - um punhado de azeitonas por um café, talvez em busca de um palheiro – onde deixaria um montículo de cascas amarelas.

Os malteses na literatura e na etnografia

"...era um maltês, quase sempre desempregado por falta de trabalho, descalço e andrajoso no aspecto, alegre e arguto na conversa. (...) Vendia o que trazia, e por bom preço. Chegava sempre ao cair da noite, vindo dos campos. O trajecto na cidade fazia-o pelos sítios mais esconsos e escuros, em passadas rápidas e furtivas."
Galopim de Carvalho

"No Inverno, rasgado, a barba crescida, assomava aos cabeços dos montes. Todos o olhavam com desconfiança. "Não, respondiam-lhe, nem trabalho, nem dormida. (...) Na terra escura, varrida pela nortada, não havia uma luz, nem uma telha. Maltês enrolava-se na manta e dormia em qualquer chapada, ao abrigo dos matos. Corrido das herdades, cheio de fome e de raiva, farejava os caminhos. Chegara a postar-se nas encruzilhadas desertas à espera das mulheres que vão, pelo meio-dia, levar o comer aos maridos. Muitas vezes não só comia: amava também. Após breve luta, era um amor brutal."
Manuel da Fonseca

"Ao cair da noite outra ordem de indivíduos aborda os montes, ora em grupos de três ou quatro, ora isolados, a um e um, todos com manifesto desembaraço.
Novos e ágeis pela maior parte, não inspiram confiança a quem os vê, antes causam asco e repulsa, pelo seus tipos hediondos, sujos e esfarrapados.
(...)
- Esmola e agasalho a um pobre, senhora lavradora - dizem em tom altaneiro os mais atrevidos, arrimando à porta de cacete na mão e manta às costas.
- Vá para o forno..., logo ceará - (...)"
Silva Picão


sábado, 12 de janeiro de 2008

Utensílios da cozinha alentejana


Prato de alumínio





Pratos de esmalte







panela de ferro











Traje e manta alentejana


Malteses


Quem eram os malteses? Pedintes, desempregados, gente sem abrigo e sem laços familiares? Sobreviventes de uma solidão desejada ou forçada? Malfeitores? Há muitos anos, sempre que queria aventurar-me pelos olivais ou pelo arvoredo mais denso das margens do rio, avisavam-me para que me acautelasse dos malteses. Hoje, a minha tia ainda guarda a memória de algumas dessas pessoas e conta que havia gente de idade, sem meios de subsistência, e outros que, com a falta de trabalho, em tempos de crise, andavam pelos campos a pedir. Havia quem fosse, semanalmente, pedir ao monte do meu avô. Levavam consigo um taleigo onde guardavam os alimentos recebidos e uma espécie de caçarola de lata; em qualquer recanto acendiam o lume, improvisavam uma trempe com pedras e paus e aí cozinhavam. Abrigavam-se nos fornos ou nos palheiros. E também recorda as histórias daqueles que andavam a fazer assaltos. Houve uma vez um maltês de longas barbas que, tendo passado pelo monte da prima, se teria escondido junto à lenha, esperando que escurecesse. Já noite, bateu à porta. Ia para roubar, foi preciso a mulher disparar dois tiros de caçadeira para o assustar.
Nunca encontrei nem conheci quem se entregasse a uma vida errante. Mas convivi com pessoas que tinham feito de tudo um pouco na vida e que, já com uma idade avançada, moravam sozinhos numa pequena dependência do monte, sobrevivendo da realização de pequenas tarefas ou dos campos que calcorreavam. Conheci gente a quem bastou uma cocheira desactivada, uma cama e parcos haveres. Eram, todos eles, senhores de uma profunda sabedoria: talhavam a cortiça, a madeira, a cana; construíam papagaios e moinhos de canavoura; consertavam o guarda-chuva, a ferramenta partida; faziam flautas de cana; improvisavam uma chaminé numa barreira de terra e aí ajeitavam a panela de barro. Sabiam erguer cabanas e construir abrigos, remediavam o desgaste de umas botas velhas, distinguiam o canto dos pássaros, recolhiam e vendiam, sazonalmente, agriões, orégãos, poejos, catacuzes, espargos, cardos, alcachofras, louro, alecrim e rosmaninho, vasculhos… Conheciam o segredo das plantas medicinais. E em Dezembro traziam o musgo alto e sedoso, o pinheiro, ramos de medronheiro e de gilbardeira colhidos em recantos e extremas que só eles conheciam.
Leite de Vasconcelos conta que um idoso, em 1915, sobrevivia da venda de espargos apanhados pelos campos, vendendo-os depois de terra em terra. Abrigava-se numa furna perto do Guadiana, onde dormia sobre uma cama de esteva, tapado por uma manta alentejana. Cá fora fazia o lume e cozinhava as açordas ou as migas numa marmita de lata. Nos alforges, transportava sempre consigo todos os seus haveres: a marmita, a garrafa de azeite, a faca, a colher, o garfo e o bocado de foice. Lavava-se nas águas dos ribeiros ou das fontes. Segundo este autor, era nos azeiteiros que os malteses levavam o azeite de tempero, o que nos faz crer que o seu modo de vida não os deixava permanecer num só local.