
sábado, 2 de fevereiro de 2008
domingo, 27 de janeiro de 2008
Pela dignidade humana!
Dia da memória!
Para que se condene e rejeite a irracionalidade humana e todo o horror!
O horror que, na maioria dos casos, foi friamente racional. Essa foi a suprema monstruosidade!
Registem-se, pela dignidade humana, para que o esquecimento, a indiferença e a omissão não vençam:
- a coragem de Aristides Sousa Mendes.
- as palavras de Herbert Pagani:
"Tu commences à comprendre pourquoi je m’inquiète
Quand je vois le mépris qu’ont parfois tes enfants
Pour les Noirs, les Arabes, les Juifs, les Gitans
Qui n’ont pás le talent de passer pour poètes…"
Para que se condene e rejeite a irracionalidade humana e todo o horror!
O horror que, na maioria dos casos, foi friamente racional. Essa foi a suprema monstruosidade!
Registem-se, pela dignidade humana, para que o esquecimento, a indiferença e a omissão não vençam:
- a coragem de Aristides Sousa Mendes.
- as palavras de Herbert Pagani:
"Tu commences à comprendre pourquoi je m’inquiète
Quand je vois le mépris qu’ont parfois tes enfants
Pour les Noirs, les Arabes, les Juifs, les Gitans
Qui n’ont pás le talent de passer pour poètes…"
Aldeia do Ciborro












Manhãs limpas e um pouco frias, campos orvalhados. Bastam umas horas para se transformarem num Janeiro ensolarado, tempo ideal para as caminhadas.
Deixamos a aldeia e percorremos o caminho que leva à barragem - estrada de terra ornamentada por medronheiros e estevas, solo formado por tapetes de musgo sedoso. Nas bermas o fio de pasto, as hastes dos canaviais, a erva rasteira, os cogumelos, os jarros bravos, o odor da esteva, do eucalipto e da nêveda.
A um olhar atento, revelam-se inúmeros pormenores a registar. Passa-se um pequeno fio de água, sons envolventes, pequenas aves chilreantes.
A marca humana, a certo momento do percurso. E a face do tempo, por entre a beleza e a ruína.
Finalmente, o espelho de água domina a paisagem - margens de esteva e rosmaninho, voo de abelhas.
terça-feira, 15 de janeiro de 2008
Artesanato
Da terra se recolhia o sustento. A terra alimentava, vestia, calçava, dava o utensílio, o recipiente… Nos regatos, nas ribeiras, era onde se recolhia o vime, a junça, o salgueiro… Era junto aos rios, às fontes de água férrea, sob as ramadas dos freixos, dos amieiros e dos choupos… Era no silêncio dos campos, ou com a canção dos rebanhos.Mãos calejadas! Mãos que talharam a cortiça, mãos que desenharam a madeira de laranjeira, mãos que entrelaçaram o salgueiro e o buinho. Com a mesma navalha com que cortaram a côdea e o queijo da merenda.
Na próxima primavera, seja a terra generosa…
domingo, 13 de janeiro de 2008
"O Maltês"
“- Quem me roubou o Sol que vai tão alto?”
Manuel da Fonseca
O Maltês
Manhã fechada de Inverno. Tudo gotejava ao longo da vereda; a erva, orvalhada pela noite, emergia gradualmente da névoa que cobrira os valados. O maltês já se erguera, cedo desperto pela noite mal dormida que lhe entorpecera os membros, feixe de ossos tolhidos pelo frio nocturno. Triste sina! - Gemera num assomo de revolta e de resignação. Não fosse a fome abrir-lhe o estômago até às costelas, desaparecesse o desconforto da humidade e Zé Valadas desafiaria, com um esgar, o céu alumiado por uma cor sem sol.
Zé Valadas tinha agora o objectivo de chegar a um monte e morder uma côdea de pão, esperançoso também de um sorvo de café com borras. Se a fome abrandasse, daria depois rumo aos pensamentos que, para os vagabundos, se formam de ilusões que os outros não alcançam, por desconhecerem que há homens que se unem ao solo castanho, às folhas caídas, ao húmus. E Zé Valadas tinha no seu destino testemunhar o raiar das manhãs e o cerrar das tardes, os risos e as feridas dos dias, o sol e a lua, o ciclo das estações e da vida.
Calcou a terra ainda empapada. Talvez o sol doirasse a tarde e enxugasse os campos. Talvez a caminhada lhe ficasse menos pesada sem as azinhagas a prenderem-lhe as botas. Por ora, era forçar os passos à beira dos terrenos, sem se perder dos caminhos. Do longe soava o ladrar do cão. Casa grande, para lá da albufeira e do pomar. Há sempre sobras, há sempre pão…
Zé Valadas parou, olhar agarrado pelas laranjas caídas. Douradas., semienterradas na lama mas sãs. Pegou nelas, limpou-as nas ervas. Inteiras, pesadas, únicas! Uma a uma, foram desaparecendo no alforge quase vazio. E o maltês, já sem olhar para a casa, retornou aos campos. Talvez em direcção a uma venda - um punhado de azeitonas por um café, talvez em busca de um palheiro – onde deixaria um montículo de cascas amarelas.
Manuel da Fonseca
O Maltês
Manhã fechada de Inverno. Tudo gotejava ao longo da vereda; a erva, orvalhada pela noite, emergia gradualmente da névoa que cobrira os valados. O maltês já se erguera, cedo desperto pela noite mal dormida que lhe entorpecera os membros, feixe de ossos tolhidos pelo frio nocturno. Triste sina! - Gemera num assomo de revolta e de resignação. Não fosse a fome abrir-lhe o estômago até às costelas, desaparecesse o desconforto da humidade e Zé Valadas desafiaria, com um esgar, o céu alumiado por uma cor sem sol.
Zé Valadas tinha agora o objectivo de chegar a um monte e morder uma côdea de pão, esperançoso também de um sorvo de café com borras. Se a fome abrandasse, daria depois rumo aos pensamentos que, para os vagabundos, se formam de ilusões que os outros não alcançam, por desconhecerem que há homens que se unem ao solo castanho, às folhas caídas, ao húmus. E Zé Valadas tinha no seu destino testemunhar o raiar das manhãs e o cerrar das tardes, os risos e as feridas dos dias, o sol e a lua, o ciclo das estações e da vida.
Calcou a terra ainda empapada. Talvez o sol doirasse a tarde e enxugasse os campos. Talvez a caminhada lhe ficasse menos pesada sem as azinhagas a prenderem-lhe as botas. Por ora, era forçar os passos à beira dos terrenos, sem se perder dos caminhos. Do longe soava o ladrar do cão. Casa grande, para lá da albufeira e do pomar. Há sempre sobras, há sempre pão…
Zé Valadas parou, olhar agarrado pelas laranjas caídas. Douradas., semienterradas na lama mas sãs. Pegou nelas, limpou-as nas ervas. Inteiras, pesadas, únicas! Uma a uma, foram desaparecendo no alforge quase vazio. E o maltês, já sem olhar para a casa, retornou aos campos. Talvez em direcção a uma venda - um punhado de azeitonas por um café, talvez em busca de um palheiro – onde deixaria um montículo de cascas amarelas.
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