sábado, 17 de janeiro de 2009
Pão e azeitonas
segunda-feira, 12 de janeiro de 2009
O deus solar e os senhores do gelo
Procuro o Sol, esse que se esqueceu de brilhar em Gaza, em Israel, num quarto de hospital … Porque todos os lados têm inocentes. Porque todos os preconceitos queimam como o gelo que corta as madrugadas. Porque são frios, demasiado frios, os dias em que alguém dorme na rua, os dias em que as fábricas já não abrem, o dia em que alguém disse um adeus definitivo.
Falaram-me do trânsito dos planetas, da energia que quebra os padrões negativos. Então, procuro o Sol para combater os dias cinzentos e afirmo:
- que todas as formas de amar são dignas;
- que toda a Terra é a nossa pátria;
- que todas as guerras são injustas ;
- que não há democracia, nem sucesso, enquanto persiste o desemprego e a exclusão;
- que em matéria de direitos humanos não há números: basta uma só injustiça para ser de mais.
sábado, 10 de janeiro de 2009
Da felicidade dos gatos
- festas na barriga;
- uma higiénica sessão de lambidelas;
- umas carícias que lhe façam erguer a cauda;
- um colo sempre disponível;
- uns gatos amigos para se aconchegar;
- um sofá ou uma cesta confortável;
- um edredão onde se possa esconder;
- uma lareira ou aquecedor que o faça borralheiro;
- um recanto ensolarado onde se possa rebolar;
- baloiçar nos cortinados;
- trepar pelos móveis;
- afiar as unhas nos sofás;
- fazer correrias pela casa ;
- mordiscar as plantas de interior;
- brincar com as chaves de casa, os lápis, borrachas, canetas e tudo o que surripia;
- atirar ao chão jarras e outros objectos pouco resistentes;
- puxar e roer botões, chinelos e atacadores, ou o Pai Natal;
- roubar, à socapa, o bife e o carapau de cima da mesa da cozinha;
- abrir as portas dos armários e fugir com alguma guloseima;
- apreciar as novas tecnologias, sentando-se em frente ao televisor ou deitando-se sobre o teclado do computador;
- saudar as pessoas às 7 horas da manhã, miando e arranhando a porta do quarto, nomeadamente aos sábados, domingos e feriados;
- escapulir-se para o quintal sempre que pode, e miar a pedir para entrar, de 5 em 5 minutos;
- correr e pular atrás das borboletas;
- subir às árvores e não conseguir descer;
- fugir para o quintal do vizinho, apesar das tentativas para o impedir;
- enfiar-se em toda a caixa, armário, alguidar ou saco que encontre;
- e ligar o “motorzinho” sempre que, enfim, consegue sossegar…
E como todo o documento, este será revisto e actualizado sempre que a Lei Felina o dite!
sábado, 3 de janeiro de 2009
A morte das oliveiras
Por que razão cortam e arrancam oliveiras ainda novas? Talvez para abrir espaço para mais um desses montes descaracterizados, onde se vive um Alentejo de fim de semana… Talvez para fornecer árvores decorativas para mais uma rotunda, ou um jardim… Reconheço que as oliveiras dão uma beleza especial a esses lugares mas elas têm um papel na história humana que exigiria outro destino. Alguém revelou, uma vez, a sua perplexidade por considerarem que a oliveira é a árvore que representa a paz: a oliveira, de ramos contorcidos, enraizada em terrenos áridos… Mas quando olho para a mancha de verde cinza que deixam na paisagem, quando sinto aquela penugem com que as folhas se protegem da seca, sei da força intemporal com que resistem à aridez, até que os céus se partilhem de novo com a terra.
Sabiam os romanos da importância da plantação da oliveira e da produção do azeite; Alfredo Saramago contou-nos como este povo soube usar os frutos e o óleo na sua alimentação. Mas o azeite teve e continua a ter, felizmente, um papel importante na dieta mediterrânica. E aqui e além, assiste-se à plantação de novas árvores. Talvez assim se possa falar do futuro e não apenas da História.
Nas pequenas economias domésticas, a família chegava para recolher a azeitona de um pequeno olival. Conheciam-se as oliveiras que davam a maçanilha, a bical, a cordovil. Em primeiro lugar, apanhava-se a azeitona para conserva ou para retalhar. Ao serão, junto à lareira, colocava-se a postos o balde e o retalhador: um tabuleiro de madeira com um orifício cheio de lâminas, por onde se iam empurrando as azeitonas, com destreza e cuidado, para não ferir os dedos. Depois enchiam-se as grandes tarefas de barro, deitava-se água, de preferência a da chuva, recolhida sob os beirais, mudava-se essa água diariamente e, quando estivessem doces, eram temperadas com sal, orégãos e louro. Ao fim de um dia, levava novamente água, que não se voltava a tirar. A restante azeitona era levada para um dos lagares da vila, de onde, depois de tirada a maquia, se trazia o azeite em potes de folha.
Na cozinha do meu avô, havia um desses grandes potes sobre o poial, junto aos alguidares de barro usados para amassar o pão. Ouvi contar que uma vez caíra lá dentro uma gata parda e que, a partir daí, a bichana passara a ter um pêlo lindíssimo. Do que me recordo bem é do azeite coalhado nos dias frios, do azeite usado nas lamparinas do oratório e nas rezas para tirar o quebranto e, sobretudo, das torradas feitas ao lume e barradas com azeite, sal e alho.
Açorda
Então, nestes primeiros dias do ano, depois dos excessos gastronómicos, nada melhor para desenjoar! E vai daí, é uma boa medida para acautelar as finanças, que os dias não estão para desperdícios, nem das sobras do pão, agora que se anuncia a subida dos preços.