No imaginário popular guardaram-se as histórias dos tesouros que os Mouros enterravam bem fundo, ao fugirem dos Cristãos, e das desditas causadas pelas Mouras Encantadas que a eternidade aprisionou no fundo dos poços e das fontes, ou no cimo das torres arruinadas.
Mais a Sul, a Lenda das Amendoeiras narra o amor de um poderoso senhor árabe pela doce Gilda, escrava roubada às terras do Norte. Diz-se, de tal senhor, homem de guerra e de vitórias, de saques e de despojos, que desposou a mais bela de todas as escravas, a menina que retinha no olhar as lembranças das auroras boreais e no tom da pele o manto frio dos campos cobertos de neve.
Mas, ofuscado pelos cânticos que soavam do seu harém, pelo arco-íris das sedas e das jóias, pela voz melodiosa das cítaras e dos alaúdes, por todas as riquezas e honrarias que colocava ao dispor da amada, não lhe restava tempo para ler a distância que crescia no olhar de quem apenas ansiava pelo regresso a casa. E Gilda, dia após dia, deixou que o azul dos olhos se enchesse do nevoeiro das manhãs cinzentas; o corpo fraquejou, sem que os físicos acertassem no remédio, sem que o poder e a vontade do senhor do Algarve fizessem lei. Até que chegou quem compreendia o mal que a dor e a saudade causam na alma humana e que, por isso, aconselhou o dito senhor a plantar amendoeiras pelos campos algarvios.
Diz a lenda que assim se fez, e que Gilda, ao olhar as árvores floridas, se curou.
Só não ficou registado quanto tempo durou a Primavera! E desconhece-se se algum dia aquele sábio teve coragem para defender actos de liberdade, ou o fim do egoísmo. Ou, quem sabe, talvez me engane… Talvez o Senhor Árabe tenha tomado o rumo do Norte, em direcção às montanhas, aos campos cobertos de neve, trocando o Sol da sua pele morena pela luz de um olhar cheio de auroras boreais. Quem sabe se não terá sido ele a espalhar, quando da sua viagem, as flores de amendoeira que encontrei pelos campos do Norte.
3 comentários:
Interessante essa tua proposta de versão da lenda.
Quanto a cura de Gilda não serão o Amor e a (Vida em) Natureza os remédios absolutos para todos os males?!... a não ser que os doentes não se queiram curar.... Deve ter sido um passeio bonito, gostava de o ter feito... mesmo com poucos prenúncios de Primavera; mas ela vai chegar em breve... talvez no corpo de uma mulher (é o tema da próxima crónica na "Folha")... talvez uma moura encantada... quem sabe?!...
Daki a pouco haverá mais flores e muitos amores porque é tempo deles. dos amores e namorados!amores encantados que andam por aí a espreitar por todos os lados e a encasalar como loucos1... os pássaros, as flores, as borboletas ...as cores que salpicam os campos só porque um poeta qualquer passou por ali....
Esses sábios viajaram mais para norte desprezando o sul que tão desfalcado esta de árvores. As amendoeiras que aqui florescem, estão velhas e desprezadas, mesmo assim mostram o seu encanto quando passamos e admiramos e permitem serem beijadas pelo insecto temido.
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